domingo, 27 de junho de 2021

Onde os pobres não tem vez

 


 

Saia eu para uma boa pedalada rumo ao cedro, quando, ainda na saída de casa, me deparei com uma cena, a princípio, normal: uma moça com uma senhora conversando. Não ouvi o que falavam e até não tinha porque dar importância. A senhora era um gari da prefeitura, fazendo o seu trabalho honrado e que muito admiro, principalmente pelas condições que tal trabalho se dá. Sempre expostos ao sol e ao relento, normalmente invisíveis, mais normalmente ainda lembrados, quando tem seus salários, miseráveis, atrasado por total irresponsabilidade do poder público.

Dito isto, prossegui minha ida até meu destino: Partiu cedro! Entre um buraco e outro; entre carros, sol no rosto, vento forte e afins, fui indo no meu caminho. Gente bem vestida fazendo seu “cooper”, tênis dos melhores, alguns bikers também, outras pessoas nos bares, curtindo a vida adoidado como se o tempo não existisse.

Cheguei no cedro, lugar onde não podemos mais subir com a bike, nem que seja empurrando, tomei um folego, bebi uma água, vi gente chegando, gente tirando foto. Tirei aquela selfie top. Puxei conversa com uma desconhecida, comentando justamente a situação de não podermos subir com a bike... enfim, subi na bike e voltei.

O interessante de todo este relato, foi visto na volta. Eis que quem me reaparece? A senhora, gari, e a mesma moça. Desta vez, claro, tive que tirar conclusões: provavelmente eram mãe e filha, provavelmente estavam conversando sobre um assunto importante, ou então, era apenas a filha esperando a mãe terminar o serviço e ir pra casa, juntas. De qualquer forma minha mente foi além daquilo visto naquele momento...

Vi, que a prefeitura passou a semana, não sei se em tom de homenagem ou coisa do tipo, pois procuro não opinar sobre coisas que, primeiramente, acho desnecessárias, e segundo, discutir certos assuntos, onde quem não é cegamente a favor da exposição da sexualidade alheia, ou do trato incondicional de que existe quase que um extermínio de uma determinada raça, é ou racista ou racista.

Como disse, vivenciamos ainda uma pandemia. Algo concreto, algo que levou a morte milhares de pessoas e de uma forma ou de outra, mudou a vida de todos nós, sejamos heteros ou não. Nessa esteira, os pobres certamente ficaram mais pobres, mas não acredito que os “intolerantes” tenham ficado mais intolerantes.

Costumo não ver pessoas e cores. Sou do tempo em que “negão” era nome e sobrenome do meu pai, sem mi-mi-mi e essas coisas de hoje em dia. Fora isso, será que com essa compartimentação social, nos tornamos mais “tolerantes”? O mundo é um lugar melhor só porque agora temos o arco-íris como bandeira nacional?

Não entendo, não compreendo e não vejo como isso seja importante. Para mim é muito mais uma questão política, para angariar votos e eleitores, do que um real comportamento de se importar com determinada causa. Nem vou entrar aqui na velha e batida questão de “dividir e conquistar” ...

Nessa mesma questão de compartimentar determinado seguimentos sociais, poderíamos passar pelos defensores dos cães, gatos, cobras e todo tipo de bicho que podemos trancar em casa e chamar de “meu bebê, filhinho”. Mais uma vez não critico que acha que temos problemas de menos e tem seu tempo de dar mais importância a bichos do que a pessoas.

Claro que sai do cerne do texto, mas contextualizar tudo que acontece ultimamente, além de cansativo, é depreciativo, no sentido de realmente valorizar os problema reais.

A pobreza é o único problema real que existe. O resto é invenção da cabeça dos homens, normalmente ricos e poderosos, que tem inteligência o bastante para gerenciar tipos sociais e ver neles apenas uma boa oportunidade para angariar votos.

Sendo a pobreza o grande problema real, qual a atual programação do poder público para ir de encontro a pobreza? Qual a semana do GARI? É só um café da manhã e pronto? É só uma foto de começo de gestão e pronto? Infelizmente é só isso.

Aquela garota que andava pelas ruas com a mãe, jamais poderá desfrutar das beneficies de uma sociedade doentia e avarenta como a nossa; ou ela “rala” muito, quebra milhares de barreiras, ou será apenas mais uma na multidão. Não teremos a semana dos filhos dos garis, nem muito menos teremos bolsas de estudos bancadas para crianças de baixa renda.

O plano é não ter plano. O plano é apenas fazer de conta que o problema é de ordem sensorial, onde cores, sejam a do arco—íris ou negros e brancos, são estigmas a serem combatidos.

Eu vejo o céu azul, o sol amarelo, as nuvens brancas ou cinzas, mas nunca vi um gari com bota nova, roupa limpa e os filhos com grandes oportunidades.

Desde já deixou claro que este texto não é uma crítica a quem quer que seja, mas apenas uma reflexão de alguém que acha que todos somos iguais em diferentes formas e sentidos. Respeito por demais o ser humano. Tento ser o meu melhor, fazer o melhor e principalmente, não sendo um problema a mais para um mundo já tão problemático.

Vamos em frente, pois lutar é a única opção. Parabéns aos garis, parabéns aos brasileiros que trabalham de forma humilde, que por vezes nos são invisíveis, mas que fazem nosso mundo funcionar. Este trabalhador, humilde, é o verdadeiro merecedor de nossa atenção e dedicação.

terça-feira, 22 de junho de 2021

O que é presença?

 


 

O dicionário diz que PRESENÇA é “fato de (algo ou alguém) estar em algum lugar”. Em tempos como os de hoje, se é que um dia foram diferentes, onde a morte paira em cada olhar e se debruça, por vezes, em nosso imaginário, estar presente é estar vivo entre os vivos; no caso, ter escapado da pandemia.

Mas será que damos tanta importância assim a vida? Estamos realmente presentes em todos os dias frente aos nossos entes ou até mesmo as demandas da sociedade? Será que somos tão oniscientes, pelo menos em pensamento, em achar que cada centímetro da nossa existência é necessário à nossa presença?

Perguntas assim, de cunho filosófico, não são menos existenciais do que as pessoas que sequer nisso pensam: na existência presente. É comum, normal, achar que um abraço ou uma ligação telefônica, em vídeo ou coisa do tipo, seja um estar presente. Eu vejo, logo sinto; e se sinto, é porque estou vendo. Nada mais nos deixa distantes! Somos e vivenciamos o realismo distante e presente.

Lembranças são acessadas ao toque dos dedos; baixadas, compartilhadas, filmadas e afins. O tempo e o tempo todo estão na linha do tempo das redes sociais. Sorrisos cada vez mais brancos são presenças cada vez mais nítidas? Mais pixels, mais nitidez, mais poder de estar?

São muitas perguntas e um 100 número de respostas.

Tantas lembranças assim me dizem que os tempos não mudaram, mas sim a nossa percepção de ESTAR. Deixamos de ser carne e osso e cada vez mais nos tornamos digitais. O que ontem era apenas passado, pode ser visto na palma da mão. os sentidos humanos estão sendo substituídos pela onipresença das máquinas. Teremos mesmo uma revolução cibernética?

O que no começo do texto era apenas uma palavra, PRESENÇA, agora se torna uma coisa eterna, digital.

Todo dia o Facebook me lembra do que aconteceu há 1 ano, 7 anos! Será que eu quero lembrar tanto assim? Será que queremos estar tão presentes em tantos passados diferentes? Será que temos capacidade de ficar lembrando e lembrando diariamente de pessoas e coisas? A vida deixou de ser contínua e tênue e virou rígida e “lembrável”? Ver entes que não estão mais entre nós, diariamente, não nos traz saudades demais? É bom vivenciar cada vez mais o passado?

Estar presente deveria ser pelo tempo que for e não pelo tempo de nossa existência. Estar presente ou presença, deveria ser mais breve, porém mais forte. Nossa fortaleza de pensamentos está cada vez mais frágil, não pelo tormento da lembrança contínua, mas pela banalização a presença.

As lembranças, boas ou ruins, deveriam ir e vir em nossas mentes e não em nossas telas. Desapegue-se do agora e viva o daqui a pouco. Coloque um pouco de expectativa para o daqui a pouco, fique ansioso, viva! É bom lembrar de quem já não está aqui entre nós, é melhor ainda lembrar daquela viagem ou daquele abraço, mas que seja em nossa mente humana e não na onipresença cibernética dos bits.

Nada melhor que a lembrança de um cheiro ou de um abraço dado. Somos tão humanos que por vezes esquecemos de esquecer o quanto é bom ter uma lembrança. A humanidade carece de um forte abraço e de lembrar quão éramos aconchegantes.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Os paços que escuto

 


 

Se fechar os olhos, mesmo que não precise, escuto os paços dos que passam e dos que passaram. Reconheço-os só de ouvir, seja na memória, seja agora.

Alguns desconhecidos, são apenas sons vindos de fora; até mesmo alguns que entram, entregam e saem, sem muito dizer. Porém, a maioria, seja dos vivos e dos mortos, passeiam pela mente, dizem a que vieram e quem são.

Não conhece o seu amor só de ouvir seus passos? Os passos são seguidos, contínuos ou continuados, mas nunca iguais, mesmo que sejam da mesma pessoa. Há passos mais fortes, outros mais vagarosos; uns se arrastam, outros apenas passam.

Há aqueles de saudade em ouvi-los! Já vinha me dar um carão ou mandar fazer algo, mas que hoje são apenas lembranças. Quem nunca se escondeu ao ouvir tais passos que o tempo levou? Que nunca temeu as notas ruins do boletim escolar? Quem nunca se apressou no banheiro, no chuveiro ou no quintal?

“Vem vindo alguém, corre!” Essas lembranças são passadas, mas são de um ininterrupto presente. Hoje, quem sabe, eu volte a sonhar com tudo isso! Que foi apenas um engano do tempo de agora, pois estão todos por aí, andando entre nós.

Serão almas ou serão sermões? Não sei, mas as escuto todos os dias. Quem me garante que são realmente de verdade e que não são apenas imaginação?

Lá fora, além do barulho, aqui dentro, além dos gritos, a saudade se distancia da realidade num passo que nunca para. “Este foi dele”, “aquele é de alguém”! Todos caminham sem findar, imemoriais, eternos, sejam eles de um ou dos outros.

Está ouvindo? Estão passando, um por vez, um atrás doutro e doutro, num compasso sem música, numa marcha singular. São vários, várias, variados, visões que meus ouvidos não param de escutar. São muitos, todos os dias, eu sei...

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

 

A ideologia e a nossa política.

 

Para quem “milita” na política de forma, digamos, profissional, entender o que significa ideologia é algo tão intrínseco que se confunde com a própria existência do ser. O ideólogo, aquele que professa tal, se abstrai do mundo, externo, para adentrar e adensar ideias de um mundo seu e de iguais.

Na política, a ideologia serve para cooptar mentes que irão propor que o mundo no qual vivem, nada mais é uma, ou deverá ser, um meio para se chegar a um fim; este que é o mundo ideal, onde o partido é a causa e a causa é viver pelo e para o partido. Nada está acima disso.

Evidentemente, que da forma mais simples possível, o partido, de alguma forma, substitui a necessidade de explicar-se acontecimentos para o bem e para o mal. O partido se torna deus, sendo o líder, daquele, a representação da vontade divina.

Não há razão na fé. Deus, como muitos conhecem na vida cristã, é substituído pela força da imposição ideológica. Rasga-se toda e qualquer realidade em prol da unidade partidária. A história está incrivelmente cheia de ideologias, que vão desde as de cunho sociocultural, até as deidades.

Esse tipo de pensamento não chega a todas as pessoas. Explicar milagres divinos, em uma consonância real do dia a dia, onde mulheres engravidam do espírito santo, onde água se transforma em vinho e tantos outros milagres cristãos, é muito mais fácil, do que explicar que, por causa de uma ideologia humana, o líder mata milhões e milhões para expurgar os impuros ou dissidentes desses ideais.

A força da ideologia é muito mais forte que a própria fé. Reis mataram em nome de um poder divino; líderes de seitas, ceifaram vidas inocentes, cegando-as com promessas de um novo mundo; lideres partidários mataram, levaram e massacraram aqueles que não coadunavam com o que o partido convencionou a chamar de “CAUSA”.

E aqui que tudo se explica.

Os ditadores tem na CAUSA, seu único propósito e aqueles que seguem a CAUSA, não veem a realidade como algo que possa não ser a vontade partidária. Em outras palavras, a CAUSA tem a primazia, em qualquer sentido e em qualquer situação.

Claro que nem todos os ditadores matam em nome da CAUSA, mas toda CAUSA tem suas mortes explicadas por ela mesma, por sua simples existência. Não existe mérito, o que existe é viagem cega pelos vales da CAUSA.

Não se combate ideologias com ideologias.

A história viu, desde os comunistas marxistas, maoístas, leninistas, stalinistas, até os nacionais socialistas hitlerianos, que a CAUSA poderá ter qualquer efeito para que se concretize como o pensamento único. Milhões morreram em nome de todas as religiões, mas ninguém matou mais que o pensamento ideológico.

Para agora e para hoje, gostaria, mais uma vez, reforçar a força que a ideologia tem na mente de quem vê a realidade por sua ótica: não adianta apela para a razão, ideólogos e seus seguidores, não veem o sofrimento como algo ruim; para eles, o povo é, como era para os reis absolutistas, apenas um meio para se conseguir um fim.

A máxima de “dividir para conquistar”, talvez seja a maior verdade do mundo! Enquanto o povo viver essa realidade, essa briga( que é algo bem diferente de luta) entre os bons para o povo e os libertadores, viverá encarcerado a essa realidade mentirosa e assassina, que espalha a corrupção em nome da CAUSA; que ceifa mentes em nome da CAUSA e que destrói famílias, lares e o mundo em torno.

Vivemos uma guerra cultural, social, moral e, principalmente, ideológica, onde alguns poucos, donos dos títulos universitários ou políticos, acuam quem nem sabe que está sendo cooptado por esta mão invisível da CAUSA.

Para terminar, infelizmente, é sem jeito, para agora, esta batalha. Estamos perdidos. Gerações e gerações atrofiadas por um único pensamento, uma única ideologia, a político-partidária. Não importa quem seja humilhado, passe fome, ou viva pela “bondade” do governante, desde que tudo isso seja em nome da CAUSA, vale tudo.

 

sábado, 2 de maio de 2020

O cidadão Bananeira


Via ontem, no YouTube, uma frase que me chamou muita atenção: " melhor que ser um grande político, é ser um grande cidadão, honesto e respeitado."
Coisa difícil? Sim, porém muito mais comum do que imaginamos. Por vezes, vejo o Facebook me "lembrando " de fotos do meu saudoso pai. A falta dele é algo imensurável. Não pelas coisas que ele me proporcionava, mas pela bandeira moral e ética irretocável. 
Não estamos falando de perfeição, isso não existe! Costumamos colocar esse estigma nos mortos, mas meu pai não era perfeito, pelo contrário, tinha os defeitos que todos podem ter.
Mas o que o diferenciava, e é o que diferencia os bons dos maus, eram suas virtudes.
Há de ser o homem virtuoso! 
Uma dessas virtudes é tratar bem as pessoas, tanto no sentido de ser sempre educado, quanto no campo da sinceridade. Nunca vi meu pai com falsidades ou emoções mentirosas. Ele era bruto ou era ignorante, mas nunca falso. Acolhi isso pra mim, não gosto, não curto e não cultivo esse tipo de coisa.
Cabe ao homem ser digno de reconhecimento, não pelo que conquistou, mas pelo modo que trata as pessoas. Alguém azedo, antipático, falso, imbecilizado, este não vale o chão que pisa. Alguém extremamente simpático, amável demais, cheio de abraços, beijos e sorrisos, este eu prefiro mais longe ainda.
A vida não é esse mar de rosas, pelo contrário,  ela é dificuldade,  mas também é esperança. 
Por anos a fio, vi meu pai sentadinho na cadeira verde de balanço. Mãos unidas, rosto sisudo, rezando e pedindo a Deus algo. 
Um dia perguntei a ele o que ou por quem tanto reza, ele prontamente disse que não era da minha conta e que eu fosse perturbar outra pessoa...
Em uma situação normal, com alguém normal, eu ficaria arrasado, com raiva, mas não, preferi achar, e sempre achei, aquilo como algo virtuoso, algo inatingível pelo meu pouco tempo de vivência. 
É isso que nos falta: verdade. Vivemos num mundo muito "educado", num mundo covardemente mentiroso e abobalhado, onde os problemas são maiores que as soluções. O mundo prático não há problema impossível, além da morte, claro.
Quem nunca ouviu dizer que as soluções mais práticas, são aquelas mais simples?
Vivemos tempos assim, acéfalos, onde a única virtude é ser mais esperto que o outro. Onde ganhar, sorrir e curtir são as medalhas penduradas nas nossas mentes; onde nos desagradamos muito facilmente, onde a mágoa impera e o amor e paixão.
Meu pai me disse, após dizer que eu nada tinha a ver com o quê ou a quem ele rezava, que: " aproveite que você falou e vá buscar um cafezinho pra mim". 
Sigo meu rumo, para um dia, chegar a pedir, também, esse café. Meu respeito não é nada diante a tudo que o mundo precisa. Mudar não é tão necessário, mas evoluir é mais que preciso.
Então, expurguemos a mágoa boba, a falsidade, principalmente, e a ganância em ser melhor que o outro; o mundo precisa de um homem fracassado, mas que tenha honra e respeito em suas virtudes.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Semana santa?



Sempre foi uma época de festa. Claro que há, evidentemente cada vez menos, uma sagrada imersão no sacrifício de cristo. Uma imersão e uma reflexão para poucos. Ao meu ver, é mais uma data.
Conto demais essa história, onde eu e meu amigo Joel saímos a procura do que comer, em plena sexta feira santa.
Era uma tarde, tipo 2h da tarde, fomos ali pela rodoviária, dizendo eu que ali havia uma lanchonete que nunca fechava... ledo engano, pois fechada estava. Subimos lagoa adentro e nada. Subimos ginásio, descemos pro centro e nada. Chegando perto da loja do seu adilon, tinha, ainda tem até hoje, eu acho, uma lanchonete aberta.
Bingo! La entrando uma senhora até simpática nos recebeu. “querem o quê?” Ele sempre muito calado, calado ficou; eu não tão falante, mas sempre gaiato, disse que queríamos pastel. Ela disse que tinha! Mas que só não venderia de carne, pois era sexta-feira santa...
Eu, não sei se por ignorância, perguntei qual era o problema? Ela continuou a dizer que era sexta-feira santa. Claro que eu sabia que é um dia que não se come carne. Eu, nunca comia, pois meu pai sempre comprava bacalhau, mas naquela sexta-feira, eu estava apenas com os amigos em casa.
Continuamos a insistência, Joel com uma paciência comum a ele, apelou: “bora sair fora, ela não vai vender.” Não pisquei e continuei a insistir. Ela vendia a de frango ou de queijo, mas carne não. Papo vai papo veio, até que chegou alguém pedindo pastel, também e de carne. Ela deve ter pensado que era algum tipo de teste, e talvez fosse.
Só que éramos 2 garotos, moral zero diante uma senhora. Chega um homem e ela diz que tem de carne, frango e queijo, mas... não aconselhava o de carne pois era sexta-feira santa. Eu lembro até hoje o sorriso quase que maquiavélico e sarcástico do joel, tipo: “Sai dessa agora, tia.”
Ela não teve escolha, foram 4 lindo pasteis, 2 de carne e 2 de frango. O mais interessante é que Joel não quis comer o de carne. Eu fiquei indignado! “mah como é que tu me fazes brigar meia hora por esse pastel e na hora “H” não vai comer.” Ele disse: “vai que é de verdade esse negócio de sexta-feira santa...” respeitei.
Já pra chegar em casa, esta que havia deixado ótimas mãos, de longe avistei as pessoas, que saiam em procissão, olhando aqui pra casa. A cena foi surreal, mais pela vergonha alheia do que pela cena, normal, em dias normais... Um dos “cuidadores” da casa estava simplesmente em cima da laje do muro, sem blusa, rodando a mesma no ar... Foi uma imagem insólita! Todo mundo olhando pra casa, a procissão toda!
Pensei no que meu pai havia dito antes de sair e me deixar em casa com a galera: “tome cuidado com a casa; sem extrapolar.” Ah sim, aquilo era mais que extrapolar, era escandalizar!
De longe eu ouvi “robocop gay”, clássico da época! O som não poderia estar mais estridente! . Foi engraçado, não vou mentir. Nunca me liguei dessas datas, aliás, nunca gostei da hipocrisia dessas datas.
Tudo isso é inesquecível na minha mente. Chega essa época e sempre lembro dessa história, desse dia, onde as preocupações e ocupações eram outras, onde a vida era brincadeira.
Todos os personagens desta história seguiram seu caminho, apenas eu, aqui e agora fiquei. Lembro com saudade daqueles tempos, mas a vida é isso.
Hoje, em meio a esses dias turbulentos, onde as pessoas estão proibidas de irem à igreja, eu vejo que datas são apenas datas, o que vale realmente é aquilo que elas refletem no tempo das nossas lembranças, pelo que nos marcam. Nunca imaginei que deus e a fé, aquela mesma fé que não me deixa comer carne, pois era sexta-feira santa, estariam relativizados por qualquer motivo.
Deus deveria e sua casa também, serem inatingíveis. Deus mais além disso, deveria ser absoluto. Que vale o homem sem uma fé? Joel não era tão afeito a igreja, mas naquele instante preferiu ouvir a voz da senhora, dizendo que era sexta-feira santa e que não devíamos...
Ele no bom lugar está, enquanto nós, aqui, vemos a fé faltar em meio a tanta razão. Vamos em frente, pois a luta é a única glória.

domingo, 1 de março de 2020

Cuidado com as escadas.

Chega a chuva e quem não tem telhado de vidro, e sim de telha, sabe o quanto uma goteiras pode desagradar.
Goteiras são, por natureza, o asfatamento de uma telha noutra ou a quebra da mesma. Por elas passa a água, que molha o forro. Causam manchas. Envelhecem qualquer teto, isso quando não o fazem cair.
Numa dessas chuvas, com raios e trovoadas, me senti na obrigação de subir, felinamente, no telhado. Que ideia... mais uma vez, raios, chuva e trovões... falei que estava escuro?
Então, era noite e chovia forte. O vento poderia facilmente derrubar mais que as folhas amareladas da acácia, que há anos jaz microscocopicamente na calçada de casa, mas uma fruta madura ou um cara de 40 anos, pessimamente preparado.
Mesmo assim, todas as vezes, nós homens vivemos menos que as mulheres. Poucos são os que sobrevivem nessa aventura da vida; aliás, realmente, ninguém sobrevive! Enfim, no telhado, vento, chuva, escuridão, fios elétricos, telha escorregadia, raios por todos os lados, mas a goteiras estava lá, pujante! Nocauteando, quase, meu dever de resolver.
Subi. Escada pequena, cachorro enlouquecido... "sai daí doido!" Calma, totó. Já comecei ralando o joelho. Bom começo. Calção rasgou o fundo e eu nem havia subido ainda. Ouço alguém cochichar: " esse não volta mais". Eu também comecei a pensar o mesmo.
Com a barriga na laje, tentando alcançar a parte superior do muro, senti que ou eu ia ou eu cairia. Caramba! Desespero! Por sorte, consegui encaixar a mão por baixo do fio grosso do ar condicionado. Heim?! Pois é, um fio, molhado pela chuva que caia mais complacente com minha situação, mas que nem por isso enxugou aquele fio.
Pensei: " ou eu puxo e morro dum choque, ou levo uma queda, não tem grande, mas que abalará, para sempre, minha masculinidade.
Entenderão o pensamento? Morrer dum choque ou ter a masculinidade ferida! Claro que puxei o fio! Morrer fazendo uma grande merda, é ou não é algo louvável?
Pronto. Fase 1 concluída com sucesso. Joelho ralado, mas a masculinidade preservada. Olho, procuro pela goteiras. Uma pequena lanterna na boca, muito "operacional", estilo filme hollywoodiano. Sim, lanterna de herança do papai! 
Procurando e provavelmente acho a goteira. Uma telha afastada. A dúvida se era só aquilo mesmo, pensei ser e recoloquei-a. 
Problema resolvido, agora é só descer pela escada que era pe...que...na... me sentei na ponta da laje, o cachorro em baixo, indo e vindo, um raio rasga o céu e eu pensei: " bombeiros". Sério! Não tinha como descer e não dar uma grande m*. E agora? Besteira. Vamos analisar novamente. Mas a escada não cresceu após análise. 
Assim, tive a grande ideia de ir por cima do telhado! Ora, que mal teria? As telhas estão apenas escorregadias! Pé na calha cheia de fio molhados? Melhor não. Pé na telha? Escorreguei. Já não tinha, o calção, fundos pra rasgar. Eu pensei que melhor seria arriscar pela calha, pois os fios eram aqueles da Coelce... Sim, Coelce! Enel dá azar, porra. Pois, os fios da Coelce não iam estar sensíveis as intempéries. Por lá fui eu. Canela rasgou ao primeiro contato com a telha pontiaguda. Show! Raios! Muitos. 
Mas eu teria que andar mais um pouco. Cheguei no local dos fios, da Coelce, e um belo dilema: como passar sem encostar neles... meus amigos, nessa hora, passou mais um relâmpago que me fez translúcido e atravessei. Segurei na mão e fui com a água da calha cobrindo o pé.
Dai pra frente foi só descida. Opa, pera, desce por onde, se a escada tá doutro lado? Aciono alguém: pega a escada! A escada chega ao outro lado, e com ela o cachorro, impaciente, querendo subir também. Mais raios. Sento no muro do vizinho, com medo de alguém me ver e pensar: quem estaria num telhado hora dessas? Pois bem, o muro do vizinho tem uns pregos que mesmo batidos ainda causam atrito.
Aqui só me resta um "kkkkk" e mais um pedaço do calção se foi, fora a perna furada.
Mas salvei a casa da goteira. Sobrevivi. Ainda meio atônito, pois havia e houve um custo psicológico grande de não ter conseguido descer por onde subi.
Estava em êxtase pela façanha, mas pensativo de como o tempo passou mal pra mim. Anos antes eu teria subido sem escada, apoiando-me nos 2 muros, mão lá e cá, pé lá e cá, estilo rã. Pra descer? Era só pular! Mas o tempo é implacável com aqueles que param nele...
Ah, esqueci de dizer: quando passei pelos fio da Coelce, acabei quebrando outra telha. Choveu e adivinha? Tive que subir novamente. Só que essa história, é outra história...