sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Carnaval... “Lembro a saudade que hoje invade os dias meus; para o meu mal, lembro, afinal, um triste adeus”

 


Não sou um qualquer, menos ainda qualquer um; ninguém deveria ser, pois deveríamos todos sermos especialmente especiais, únicos em imperfeição. Mas dentre meus defeitos, a saudade, como uma roupa em farrapos, de tanto usá-la, se nega a partir. E eis que espero dela, jamais me despedir...pelo menos não tão cedo.

Estaríamos aqui, nesta época carnavalesca, rumando ao Triunfo, ali depois da Ibaretama, para a vivenda Sheila Maria. Um lugar onde várias outras tantas famílias se reuniram por décadas, em várias datas festivas, comemorativas e afins.

Mas nós, de posse do empréstimo da casa, íamos no carnaval. Eu não conheço esta data como a maioria das pessoas conhece. Como não bebo, não gosto de aglomerações, não cheiro e não fumo, sou tipo careta, mesmo sendo um baita sonso. Como diria Nelson: Só as paredes confesso...

E nessa infanto-adolescência, nesse tempo hoje tão saudoso, íamos passar o carnaval por lá, no Triunfo. Desde já, certa vez, fomos numa rural, salvo engano emprestada pelo chico Martins; era coisa demais nessa rural: desde gente, a comida e uns ótimos pães feitos pela “irmã suelo”.

Como muitas vezes fomos para lá, farei um mix de lembranças!

A viagem da rural era muito clássica. Desde a saída, aquele cheiro de fumaça, diesel e só deus sabe mais o que, ainda hoje entranha as lembranças. Chegado lá, íamos, digamos, fuçar os quartos, pois me diga se não é isso que os ratos fazem quando os gatos saem? Melhor dizendo, íamos direito olhar piscina!

Não éramos pobres, mas, porém, humildes demais para ter uma piscina em casa. A piscina pequena, mas era a glória em forma de buraco e água. Simples, não?

Papai já se ajeitava com seu som cassete e as eternas marchinhas carnavalescas. Era fita atrás de fita; era o que se tinha de mais perto de uma folia! Deus sabe o quanto era bom aquele tempo...

Mas a piscina não estava cheia. Tínhamos que esperar pelo menos um dia pra que ela enchesse. Na primeira noite sempre existia essa expectativa da piscina encher. Passávamos a noite acordado, tentando fazer o outro ter medo do quadro do Mickey. Juro, ele era fantasmagórico! Reza a lenda que o Mickey se mexia no quadro. Era um terrorismo total.

Mal raiava o dia e já estávamos lá de pé, frente a piscina. Não importava se tinha enchido ou não, o que importava era que tinha água no buraco e dava, quase, pra fazer aquele “timbum”. Porém, estamos esquecendo a merenda. Recordo demais o nosso saudoso Joel, olhando pra mim querendo perguntar quanto de café tinha que colocar na xícara. Certamente, tanto ele quanto o “dodim” jamais havia tomado Nescafé. Eu, sem muita malícia, disse que podia botar o quanto quisesse...eis que botaram café demais! Porque você colocar 3 ou 4 colheres de café numa xícara...Nunca esqueci isso!

Passada a fase da acomodação e estadia, a piscina era o foco. Enxia, não enxia. E papai já estava trabalhando naquele litro de cana. Pra ele, que jamais havia comido chocolate e não sabia o que era beber Coca-Cola, cachaça era o extase! Litro e meio desciam fácil...

Mas o que mais me impressionava nele, era a capacidade de beber sozinho, escutando um mix de carnaval-marchinha e “a volta do boêmio”. Não havia nada que o atrapalhasse. Perna cruzada, cigarro na mão, óculos escuros, fita ia fita vinha e ele não dava uma palavra.

O que tento hoje a todo custo, fazendo meditação ou respiração controlada, papai fazia com cana, um sonzinho e o eterno cigarro. Ele entrava num flow inatingível. Vez ou outra alguém gritava lhe perguntando algo e ele, acho eu, nem escutava, assentia com a cabeça. Ninguém sabia se era sim ou não, mas estava respondido.

O meio-dia chegava e com este chegava o almoço. Nós, meninos, mulheres e crianças, não tínhamos a prioridade de comer primeiro, era o atual dono da casa; um flagrante caso de respeito aos mais velhos!

Até aí, aparentemente, nada demais, mas era uma cena foda! Papai comendo aquela panelada quente, com cuscuz e arroz, levantava-se e sem nada dizer, mergulhava na piscina. Ficávamos absortos, incrivelmente maravilhados com a destreza e a coragem, pois quem tem essa coragem de mergulhar numa piscina após comer uma comida quente e pesada quanto aquela?

Diga-se de passagem, até hoje a mamãe diz pra não abrir a geladeira, porque ela comeu caldo quente...minha mãe, o que é um caldo quente e uma geladeira, frente a um mergulho triplamente qualificado, após uma panelada! Claro que se ele estivesse aqui, diria a ele que sobreviveu ao mergulho, mas...

Saía ele doutro lado da piscina, com aquele calça azul-marinho e pasmem! De óculos. O homem era um super-herói! Voltava, sentava, uma terça de cana e mais marchinha.

Aqui uma coisa interessante: com o passar e o avançar do dia, a marchinha dava lugar a “boemia”. Aparentemente papai já roía muito antes de conhecermos Bruno e Marrone ou a lendária Marília Mendonça. Aqui cabe dizer que será o nome da sua neta, meu pai, Marília.

Voltamos...

Nelson Gonçalves, Amado Batista, Ataulfo Alves, Reginaldo Rossi e tantos e tantos outros, faziam a festa!

Como disse logo no começo “lembro a saudade que hoje invade os dias meus...” Que me desculpem todos os viventes, mas até hoje, só consigo lembrar e chorar, ao mesmo tempo, deste homem chamado meu pai.

Todo tem seus amores e suas histórias, dedicando publicações e fotos, mas eu tenho uma vivência e admiração por este meu pai. Não por ter sido alguém, mas por ter sido tudo que eu jamais serei. Posso fazer mais e melhor, mas nunca igual.

Os carnavais irão passar e com ele novas histórias, boas ou ruins, mas nada se comparará a estar naquele Triunfo, com aquele ambiente, com aqueles que já partiram. Só tenho a homenagear e pedir a deus que tudo transcorra da melhor forma possível.

Que todos tenham um bom carnaval, mesmo eu não gostando da data...como disse antes, nada se compara com aqueles velhos e bons tempos...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

É Morro abaixo

É o pensamento indolente
A clareia no deserto.
É como estar por perto,
Mas distante e inclemente.

É o afoite sem dor
O vago de pensamento
É como estar, por dentro,
Aberto ao ódio e ao amor

Ao mesmo tempo
Ao mesmo fim
Ao quem sabe
Ao aí de mim.

Aqui não cabe
Por isso transborda
Mas ninguém sabe
O quanto importa.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

nada mais que a verdade

Como meu avô paterno, Carlos Nogueira de Milão, morreu quando eu tinha pouco mais de 6 meses, coube ao cabo Edi ser a imagem de um avô. E assim vamos nós...

Lembrar de coisas boas, saudosismo, é como sentar a beira da estrada da vida e olhar em perspectiva. Claro que muitas histórias eu ouvi; coisas que iam e vinham na minha imaginação; coisas tipo fazer mel de rapadura pra sustentar uma família com 10 filhos, ou passar longos anos com apenas 3 cartuchos de 7.62mm quando era “delegado” na várzea da onça... mas gosto, não só de sentar à beira da estrada, mas ir e vir com os carros que passam e sentir o que eles dizem.

Certa vez, meu avô materno, cabo Edi, precisava ir na maternidade aqui de Quixadá. Aparentemente, não havia quem fosse com ele e eu me dispus a ir. Ele de poucas palavras, mas de passos rápidos, saímos rumo a maternidade. Não perguntei o que ele ia fazer lá, mas certamente não me importaria, pois uma viagem dessas era ir e voltar sem ter tempo pra pensar.

Num determinado ponto da ida, notei que tanto eu quanto ele nos alternávamos do lado direito da calçada; era como uma corrida de carros, onde estar do lado de dentro da curva faria toda a diferença. Vi que ele não fazia qualquer esforço pra andar mais rápido que, tanto que eu disse a ele: “meu vô, leve a mal não, mas vamos mais devagar”.

Acho que ele pensou que eu havia dito isso por causa da idade dele, que certamente já beirava os 70 anos ou mais; porém, como sempre fazia, ele se fazia de doido pra melhor passar e continuamos rápido.

Eu era novo, não tinha 30 anos, mas estava penando para acompanhar o ritmo! Ele sempre fazia uma caminhada toda manhã, cedo, madrugada e eu, sei lá o que fazia, mas com toda certeza eu teria muito, e tenho, que me esforçar pra acompanha-lo, tanto na idade como na vida.

Mas continuava a troca de lados na calçada, mas sempre era a disputa pra quem ficava do lado direito. Numa certa altura da viagem, disse a ele: “meu vô, me diga uma coisa, porque é que você só anda desse lado da calçada?” A princípio, acho que ele, mais uma vez, se fez de doido e só andou...e agora, ainda mais rápido.

Caba do sertão, ligeiro, não tem tempo pra enxugar o suor nem dar conversa a gente besta; nesse caso, com toda certeza, besta era eu. Ele lidou com gente ruim; contava que certa vez, prendeu um meliante na várzea da onça e trouxe o caba amarrado pelas mãos, até a cidade. Trouxe, literalmente, quase arrastado. Ele veio de cavalo e o bandido de pé. Imagine isso nos tempos de hoje...

A viagem continuou e continuou e chegamos novamente em casa. Dom lucas, 251, campo velho. Eu estava suado demais para perguntar mais alguma coisa. Estava cansado demais! Mas nunca deixei de me perguntar, pois ele nunca me respondeu: por que o senhor só anda do lado direito da calçada?

Noutra feita, saia eu de casa dizendo a minha mãe: vou lá no vô. Esse dia foi épico! Eu vi o que não vi! Atenção, só sou responsável pelo que digo, mas não pelo que você entende ou acredita.

Seria apenas mais uma das centenas de visitas que eu fazia... quando cheguei na esquina, da famosa zeneide, lá estava ele na janela. Até aí tudo normal, pois eu fiz esse trajeto centenas de vezes.

Já pisando na calçada, fui longo pedindo a bença; ouvi o “deus abençoe” e não vi mais nada. Quando cruzei a porta, ele, que estava na janela, não estava mais lá! Parecia que eu havia cruzado um portal! Eu olhei, andei mais uns passos e ouvi uma voz atrás de mim, na janela, dizendo: não me viu né?

Fiquei, como ainda até hoje estou, sem entender. Eu cheguei e ele estava na janela, quando passei pela porta ele não estava mais lá! Eu conto e ninguém acredita: meu vô ficava invisível! E ele ficou.

Por vezes me pergunto se eu mentiria sobre alguém que já faleceu. Acredito que não. Mas de qualquer forma, foi o que não vi, literalmente, o que aconteceu. E ele ainda se regozijou, dizendo: não me viu, né?

Não mesmo.

Mas ele explicou que era uma oração que ele fazia, mas que demandava muita energia ou coisa do tipo e que não era algo que sempre fazia. Aparentemente, era algum tipo de poder místico ou sei lá o quê; de qualquer forma, sei o que não vi.

Poderia dizer mil outras coisas; poderia falar da vez que passou um homem vendendo rede e ele fez o homem mostrar umas 10 redes e no final disse que não dormia de rede porque tinha diabetes. Eu olhei assim e fiquei sem entender. Mais ainda ficou sem entender o vendedor de rede. Que tinha a ver diabetes com dormir de rede?

Falando em rede, ele me disse e carrego comigo até hoje essas palavras: meu neto, se você ficar dentro duma rede, o máximo que pode acontecer é o punho quebrar e você cair no chão... muita verdade nessa frase.

Leitor da bíblia, pai, humano, fraco e forte, tudo isso foi meu avô. Costumo pensar que não existe honra nesse mundo que vivemos, mas existe história e essa ninguém pode nos tirar. Aprendi muito naquela janela, desde o que fazer ao que não fazer, onde via idas e vindas, boas ou ruins, de frente ao cabaré ou de costas para a casa, dizia-nos ele o que a vida não é, pois o que ela é, todos nós sabemos.

A vida é, nas palavras dele, tudo aquilo que fazemos pelo lado direito da calçada: é o lugar mais seguro para se andar; e tudo isso sem muitos motivos, apenas é o que é.

sábado, 21 de janeiro de 2023

menino

Cresça, menino, cresça
Comece tudo sozinho.
Depois, quem sabe, apareça,
E me conte sobre viver sozinho.

Desça, menino, desça 
Seu pedestal é seu moinho.
Esqueça, mas não esqueça,
De lembrar de nós  só um cadinho 

E nesse balanço noturno
Um som faça lembrar de nós
Quem sabe estejamos sós 
Ou ocupados demais com o futuro.

Sexta, menino, sexta,
Não será a feira de corações?
Besta, mas é besta
De pensar em tantas emoções...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

"Criança "

Não sei o que é verdade,
Meus olhos vivem cansados.
Se os abro, perversidade.
Se os fecho, chego a sonhar.

Então que mal nisso há?
É normal piscar com um cisco
É mal deitar se preciso
Ou então, é tudo ilusão?

Dizem não ter perdão
É crime, de fato, se meu ato
Foi sonhar demais.

Aquele tempo atrás...
Não voltará!
Será?

Prefiro ir de olhos abertos,
Pois se fomos descobertos
É só mergulhar.

Que mal nisso há?
Ninguém sabe, ninguém destrói
Te corrói, será?

Me dê sua mão e venha
Não se detenha
Confie!

Desfile seu esplendor
Sem qualquer avareza
Deixe lucro, não despesa!

Não tenhamos pressa
A felicidade partiu
E se saiu...

Vamos com os olhos pensar,
Falar bem baixinho,
Tudinho...

Já não sei o que não é verdade 
Com a idade, meus pensamentos
Tornaram-se lentos, rabugentos
Não são nada além de ilusão...

Então, porque não ficar?
Sentado, vagando, andando
Rimando, postergando, aliviando,
Abrindo os braços aos abraços!

Que o vento na brisa te leva
Te eleva, pois é bom flutuar!
Quem anda despreza 
Mas é o que temos pra dar.

Raiva, os teus olhos de ódio 
E os meus fechados.
Não quero ver outro episódio,
Com meu coração queimado.

O último recado, prometo:
Somos bons e sujeitos,
Cheios de predicados
Objetos diretos e adverbiais.
Sinais, menos é mais 
Mais com menos, jamais!

É um jogo de olhos fechados
Pois a verdade é sua versão.
Então, mesmo neste estado
Fechados, vejo melhor que você.

Eu sonho, me decompondo,
Me indisponho, risonho
Petrificado, instado, aliviado,
Medonho...é você mesmo, aí?

Aqui, ali, um longo texto
Um pretexto, um detesto!
Protesto, pula esse "esto",
Vamos indo, caindo.

Prometo, último soneto:
Nem depois nem antes da morte,
Em meio a qualquer circunstância
Nao foi sorte, nem destino,
Rumino, menino, crítico...
Você não lerá, 
Pois o privilégio
É colégio,
onde analfabeto não há.

Agradeço, o apreço 
E o tempo desperdiçado 
Num estado de pura e plena penúria
Nos "alúia", "alumia",
Que a antes...
Agora é senhorá. 

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Não é chuva, mas tem período e consequências.

 Costuma-se convencionar que: de 4 em 4 anos eles aparecem e com eles vem as promessas de sempre a para nunca! Eis que falo sobre a campanha política a nível nacional e estadual.

Nesse período, onde passamos a maior parte do tempo falando mal daqueles que elegemos, costumamos nem lembrar em quem votamos. No máximo, lembramos que somos petista e, agora, bolsonaristas.

Esse período eleitoral costuma vir cheio de promessas; coisas que irão mudar para sempre o rumo de uma região ou cidade. O país não será mais o mesmo! O povo nas ruas é a voz da mudança e por aí vamos e por aí vai.

Infelizmente a realidade é outra...a maioria deles, candidatos, e nós, eleitores, pouco nos atemos sobre a importância que a política tem em nossas vidas. Por questões mais pessoais, de militância político-partidária, esquecemos que os candidatos deveriam apresentar propostas reais e não apenas aquele velho e bom “me engana que eu gosto”.

Não tão infelizmente, mas algo bem mais real, é a visão de que o mundo deve ter e ser aquilo que queremos para nós, e não aquilo que é possível ser. Com essa afirmação, impondo a realidade como pano-de-fundo para o texto atual e o contexto político, caberia a nós uma nova visão da nossa sociedade fundada e afundada na hipocrisia do bem-estar social.

E acredite: na nossa sociedade, poucos são os que veem no bem-estar social algo coletivo. Tendemos a ser individualistas ao ponto de ignorar os “sinais” de corrupção em nossos candidatos. Roubou, mas fez! Esse é bandido! Ali é um vagabundo safado. O meu candidato é o melhor e mais preparado. Até mesmo palavras que mal sabemos o valor e importância histórico, são usadas para classificar desatinos, tipo a palavra da moda nessa pandemia: genocida.

Se alguém que, teoricamente, influencia você a tomar atitudes que são, também na visão da maioria, anticientíficas, o culpado é o “genocida”? E pelo outro lado, se a mesma justiça que condenou, absolveu, está justiça só é boa, justa e digna de aplausos apenas quando me interessa?

Por aqui iríamos até os primórdios da civilização. Desde muito tempo o homem vive de enganar e enganar-se, literalmente. Os políticos, também literalmente, mentem para quem quer ser enganado; existe muito além da cumplicidade entre os que mente e os que acreditam, pois eles se locupletam; são eles que são a causa e a consequência, pois só existe o mentiroso porque há quem acredite nele.

E certamente está você pensando: o que esse doido está dizendo? Digo que somos cumplices por alimentar um sistema político-social falido e fadado ao fracasso que é. Não existem discussões políticas sérias num ambiente onde o juiz é vítima, julgador e executor da pena. Não existe discussão sobre liberdades individuais, sejam elas sobre o voto ou sobre o que podemos ou não fazer, seja na internet ou no nosso corpo, quando deixamos que outras pessoas decidam o que é melhor para nós. Devemos ter o livre-arbítrio e exercê-lo a plenos pulmões, pois aquele que se deixa escravizar, se acostuma com o estralar do chicote e, por vezes, sente saudade que chora...

Como visto, é, a meu ver, impossível falar apenas de política e votos, sem esbarrar no maior problema nacional que é a ignorância. Estamos acostumados a sermos enganados por nós mesmo. Não fazemos a menor ideia do mal que estamos a fazer, quando vendamos os olhos para aqueles poucos e bons(sic) trocados colocados no bolso. Já dizia o profeta: farinha pouca, meu pirão primeiro.

terça-feira, 19 de julho de 2022

” já fui bom nisso”

 

Assim dizia papai sobre, onde, como e quando o tempo lhe deixará apenas a saudade como lembrança de outros tempos...

Eu já fui bom em ouvir e estar com as pessoas. Hoje em dia, talvez por fatores improváveis, eu esteja em uma fase menos, digamos, afeita a ouvir baboseiras. Impaciente e indeciso, assim como na música do Legião Urbana. Mas muito menos “amo mais você do que eu”, do Catedral.

Deve ser a idade, ou o excesso dela; ou quem sabe os erros, e o excesso deles; ou talvez e mais provável, todas as anteriores. Todos chegamos em algum lugar de alguma forma. É impossível chegar aos 15, 25, 33, 42! Anos, sem que as marcas do tempo não nos empurrem contra as pessoas.

É o filho chato, a mãe que não entende, o marido/esposa que reclama, é a vida que não se desenvolveu ou os fatos que julgamos necessários que não saíram do canto! Mas aqui entendo o que o papai dizia: o problema somos nós.

Nós, literais ou objetos, dados na corda ou existenciais, repletos ou incompletos, simples ou impensáveis, vão se acumulando nessa corda que pulamos diariamente. É o cansaço, o sobrepeso, o mais do mesmo, a falta de quem nos compreenda, o tempo que só passa e nada acontece! É tudo e ao mesmo tempo nada.

No final, ao fim, sequer teremos a possibilidade de olhar para trás. Quando chegar a hora de nos chamar saudade, como diria Nelson do Cavaquinho, o tempo não irá parar, né, seu Cazuza?

O que somos hoje é a “soma de todos os medos”, um ótimo filme com Bem Afleck e Morgan Freeman. E nem nos nossos piores pesadelos acharíamos estar na situação na qual nos encontramos. Claro e provavelmente, você ou até mesmo eu, possa estar se perguntando: “estamos tão mal assim?”

Eu não sei vocês, mas eu sinto falta dos meus tempos de criança:

“eu daria tudo que eu tivesse, para voltar aos dias de criança. Eu não sei pra que que a gente cresce, se não sai da gente essa lembrança...” Grande Ataulfo Alves.

Nesse tempo, até mesmo em tempos mais à frente, não ter, como sempre digo e com orgulho, R$1 no bolso, eram tempos infinitamente melhores. Nossos pais, ainda jovens, carregavam toda a responsabilidade que hoje nos massacra. A realidade era diferente, o tempo era inexistente, os olhos brilhavam... e os pés sujos do chão de terra? Vixe... ali era bom demais. 

Não existíamos, apenas sentíamos. Era simples, sem composição. Não éramos versos trabalhados, apenas prosa sem compromisso. Literalmente, éramos o que o sopro divino nos deu: vida, plena, absoluta e irrefutável.

Mas aí você pode pensar: o homem cresce, para perpetuar a espécie... essa espécie? Se eu tivesse crescido sabendo como o mundo estaria, teria, como diria meu vô, morrido cedo, pois ele falava que quem não quer ficar velho, que morra novo. Não dá meu vô, meu pai já estabeleceu o precedente: "já fui bom nisso..."

Aprendi com ele que as intempéries da vida são inatas. Ou é assim, ou assim não é. Nem posso correr devagar, pois nunca tive pressa e levo esse sorriso porque já sofri demais. Claro que atropelei o Almir Sater, mas ele há de entender.

Na esperança por dias melhores, por pessoas melhores, por um mundo melhor, acho que vamos levando, empurrando com a barriga. Fico livre dos meus pensamentos quando escrevo, tento deixar aqui, mais que verdades, pois nunca fui de mentir demais. Hipocrisia e o medo de sermos quem somos, nos dá calafrios e cala-bocas.

Talvez eu seja sincero demais e me importe de menos com o que os outros vão dizer, mas ninguém nunca chegará onde eu cheguei, pois ando só e só eu sei...

 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

A periclitante situação do serviço publico


Não é fácil ser prefeito. Muita gente pedindo, muita gente que não simpatiza com você e que não votou em você; mais gente ainda que ganha pouco e faz menos ainda; e uma imensidão de outros tantos que lhe apoiaram e querem uma vaga no serviço público.
Tem muita gente que ajuda e mais um tanto que atrapalha. Eu, servidor público municipal, quase 10 anos sentadinho no meu canto, em isolamento social rígido a quase 7 anos, vou observando.
Não sou um caso a se pensar, sou ínfimo diante a massa de servidores municipais. Uma gota d'água num oceano de “quereres” e sentimentos administrativos. Mas eis aqui, e não posso deixar de ver, o problema: a falta total de IMPESSOALIDADE. Cabe a todos que prestam serviço público serem impessoais. Esse é, pra mim, o maior e o grande infinito mega super maximo problema que afeta a relação de amor e ódio, entre o “rei” e os, literalmente, vassalos.
“As ondas do rádio” se calaram. Elas, logo elas, paladinas da verdade e do interesse público, perseguidora implacável do maldoso ex-prefeito, que por sua vez, era perseguidor contumaz dos concursados, que ainda hoje, alguns deles, esperam para ocupar seu lugar ao sol…
A glebe negacionista, como se dizem “aqueles que amam cegamente seus líderes"...opa, perai, englobei petista e bolsonaristas numa só frase? Sou um gênio da obviedade! Voltando, esses aí de cima, negacionistas da realidade, são a ala babão nos bons costumes e oposição nas vacas magras. Pobres e coitados. Indulgentes da coisa pública. Pessoais no poder e impessoais na oposição. Fazem tudo pelo povo e por aí vai a piada…
E os que se calaram subitamente? Nem mencionarei para não atrapalhar o texto.
Eu vivo dizendo: o eleitor é aquele que uma vez a cada dois anos é obrigado a ir votar. O cidadão é aquele que vota e tem consciência de cuidar, pastorar, falar mal do administrador/vereadores, fiscalizar a coisa pública e por aí vai!
Vejo tetos tentando cair na minha cabeça a tempo demais. Passa prefeito, entra perfeito e continuam me dizendo que “esse teto vai cair”. Acreditem, literalmente. Mas ser ninguém tem suas vantagens: ninguém te vê, ninguém lembra de você, ninguém enche seu saco e quando vierem encher, mande-os chupar caju!
Mas existem grandes e verdadeiros trabalhadores no quadro efetivo municipal; gente que veste a camisa da coisa pública; os que varrem a rua, faça chuva faça sol, aqueles que recebem sempre atrasado, mas que a culpa é sempre da empresa que não pagou. Há os que estão a dois anos enfrentando a pandemia, correndo risco de contaminação. Há os que não tem hora para descansar, são chefes 24hs por dia, a postos, diante os problemas e o caos que é o serviço público municipal…
Não há neles a vontade de enriquecer às custas do erário. Não há neles homens ou mulheres, petistas ou bolsonaristas, mas apenas a missão de ajudar o cidadão quixadaense. 
Você, servidor público municipal, deve conhecer algum servidor altruísta; alguém que vive para servir o povo. Alguém que não tem abuso do atendido, que vê o povo como patrão e chefe, cliente da coisa pública.
Se você não conhece, uma pena. Talvez seja por isso que sua classe seja tão humilhada, vivendo ao bel prazer do prefeito que sai, do perfeito que entra.
Talvez nos falte uma consciência do que realmente é servir ao senhor da rua, o povo e não apenas ao nosso ou ao interesse daquele que te deu um cargo e a incubencia de babá-lo, na saúde e na doença, no burado das ruas apagadas e escuras, até que o mandato dele acabe e venha outro lhe tentar, usar e, mutuamente, jogá-los fora.
Lembre-se: quem mandou votar no homi?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

A morte como um acontecimento inevitável.

Por mais que eu não demonstre tanto assim, escrevo bastante, sobre tudo e sobre todos. Algumas palavras minhas só serão lidas pós-morte. Tenho um, digamos, diário gráfico e outro filmatográfico. Gosto de falar com meus sentimentos, mas, com o tempo, não por eles. Não sabemos o que há do outro lado dessa porta da vida. Morrer é uma passagem dolorosa, principalmente, como pude aprender com a morte de meu pai, para os enfermos. 

Nunca parei para falar sobre a morte como um fim; para mim, esta, é muito mais que um acontecimento, é um acontecimento inevitável. E por que não estamos preparados para ela? Negligência, soberba ou apenas medo mesmo? Nenhuma coisa e nem outra, não é natural nos prepararmos para ela. Não é natural esperar o fim, seja ele o nosso ou o dos outros.

A própria vida trata de negligenciar a morte. Não há como viver e pensar que um dia todos morreremos. Você pode até pensar nisso, vez por outra, mas será de uma forma romantizada ou olhando para um futuro distante. Não há nada como o agora.


Dentro de todas as caixas da nossa vida, haverá essa cobra venenosa, pronta para fincar seu veneno no nosso destino, a tirar-nos a vida. Desfalecidos, entorpecidos, os olhos semiabertos, aquela luz inebriante que nada nos diz, os sons abafados e inauditos, rostos tão perto de nós, mas ao mesmo tempo tão indescritíveis…poderá ser assim, mas não sei se é ou será; ninguém sabe.


Vi por quase 45 dias meu pai deitado no leito de morte. Eu não sei se ele sabia que ali seria seu fim, mas eu sabia e estive em paz com isso até chegada a hora. Segurei sua mão e vi seu último suspiro. Tudo que tinha para dizer eu disse, mas não naquela hora ou nos dias anteriores. Errei, acertei, "enchi o saco", dei sorrisos e aprendi, mas não naquela hora, nem naqueles dias, fiz isso antes.


Assim faço com todos, todos os dias, dou o máximo da minha presença, seja ela boa ou ruim. Não sou a pessoa mais agradável do mundo, mas não sou o tipo desagradável. Não sou mais ou menos, sou tudo ou nada. Aprendi com quem nunca me ensinou e vivo como quem nunca deixou de aprender.


Mais uma perda, inominável, mais um acontecimento, inevitável. Pessoas choram, sentem falta, se culpam ou mentem para si: “podia ter feito mais…” Não, não podia. Você fez tudo que queria e o que acha que não fez, não era para ter sido feito. O maior consolo para quem perdeu alguém que amava, está nas lembranças dos dias bons e ruins; está na “timeline” que é a vida, sem tempo para recomeçar. 


Nessa vida, que conheço e na que todo dia me despeço, nunca vi finais felizes e nem adeus com lenços brancos em acenos. Sempre vi cabeças baixas, olhos fluidos, caixões e cemitérios. Nunca me senti tão em paz com todos os dias que fui eu mesmo. Nunca precisei dizer adeus a ninguém, pois, na presença ou na ausência, todos souberam/sabem quem sou eu.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Darwin e a covid-19: uma lição que o mundo teima em aprender

Acredite: ninguém até hoje sobreviveu a esta vida. Nascer e morrer faz parte do pacote chamado existência.

Desde quando o mundo é mundo, o homem vive a saga de escapar da natureza. Esta, tentando, naturalmente, acabar com a raça humana da forma mais natural possível.

Com a atual pandemia, onde, evidentemente, houve um avanço significativo na mortalidade, apressando a morte de alguns e ceifando a vida de outros que provavelmente...morreriam também!

Não há como fugir da morte. Houdini, o grande mágico, não soube escapar de uma reles apendicite. Jesus, segundo Mateus, Lucas e João, também mortos! Eu, você. Deus, segundo Nietzsche! Há salvação para os seus pecados, mas não há para a morte.

E como sobreviver a um mundo que mata tudo e todos? Impossível. Do pó viemos e adivinha… pois é.

Mas certamente foi Darwin que nos deu a maior contribuição para esta vida incerta: evolução.

Em sua teoria, priorizou a tentativa, não de explicar a vida ou a morte, mas de nos alertar sobre como evoluem os seres vivos. É tipo um faroeste, onde o mais rápido, o mais forte e por vezes, o mais esperto, sobrevive até evoluir e morrer, para que outros, de sua descendência e melhor adaptados, sobrevivam mais e por mais tempo, mas nunca eternamente. 

E eis que aqui estamos, mais uma vez, lutando pela nossa existência, contra a natureza. Não há como detê-la. Nem como fazer um acordo com ela. Se ela nos quer mortos, ela terá, mais cedo ou mais tarde, literalmente.

Mas dentro dessa perspectiva evolutiva e de sobrevida, por vezes esquecemos do agora. Mal saímos do cala-bolso pandêmico e já estávamos discutindo sobre, acreditem, Carnaval. Como diria Galvão Bueno “é amigos…”

Até pouco tempo atrás, tempo que sequer pode ser posto na conta da existência humana, o nosso amado Brasil-sil-sil-sil! estava vivendo um caos sanitário. A incerteza era a grande certeza do amanhã. E quando não foi? Seria totalmente insensato exigir conduta diversa, pensar de forma diferente sobre o amanhã, pois a natureza humana é temporal, imediatista, sendo poucos que se preocupam com o “de onde viemos e para onde vamos”. 

Abro aqui um parentese para citar Nicolas Taleb, um grande cético ao futurulogismo humano, quando diz que, em minhas palavras, não há como saber quando um “cisne negro” irá acontecer.

Na visão de Taleb, um Cisne Negro é um acontecimento impossível de prever, assim como um terremoto, que mesmo que estejamos sob uma falha geológica, e a materialidade história nos prediga que ali, em outros tempos, houveram vários terremotos, é impossível dizer quando haverá outro. Este mesmo Cisne Negro, na minha visão, é como saber quando iremos morrer, impossível de exatidar.

A insegurança da vida é que faz do homem um ser pensante e reflexivo, mesmo que a grande massa da população, não faça a menor questão de ter esse instante consigo mesmo..

Naturalmente, se você parar para pensar um pouco, além do nascer do sol e o sopro da morte em nosso rosto, o que pode ser visto como certeza? 

Assim vê a maioria, que mal tem tempo para se locomover de casa pro trabalho; que relega e delega nas mãos de uma penca de trambiqueiros, seu destino político e de vida.

Independente de nossa existência, algumas coisas continuarão existindo. Independente de nossa insistência, outras coisas jamais conheceremos. Dependemos do acaso, mas jamais do casuísmo. Pois aqui digo, nada é por acaso.

Darwin jamais imaginaria que estava descobrindo a prova inequívoca da fragilidade humana. Somos tão iguais aos macacos quanto este a nós. Somos tão diferentes à existência quanto ela é a nós. Somos muito mais passageiros, literalmente, do que viajantes. Somos uma espécie em extinção em progresso, estamos nos expandindo, assim como o universo e um dia definharemos, não pelas mãos de uma doença ou deste ou daquele vírus, mas pela nossa própria natureza evolutiva.

Evoluir até se transformar em outra coisa, ou seja, sucumbir.

Nada evoluí que não seja para seu próprio fim. Esta é a humanidade que mata milhões de fome por ano. Que morre por falta, de meia hora por dia, de uma simples caminhada. Que prefere morrer a ter uma dieta correta ou que prefere não tomar uma vacina, pois esta é experimental. 

E aqui, há de se fazer uma reflexão ainda mais profunda: como podemos ser tão idiotas em achar que, mesmo ignorantes sobre como é feita uma vacina, teríamos o conhecimento de dizer que esta ou aquela é, foi ou será experimental.

Morra e não tome!

Eu não faço a menor ideia se é experimental e menos ainda sobre sua eficácia, mas eis aqui meu braço, o mesmo que tomou a BCG e carrega essa marca até o final dos tempos! Tome não, faz mal. Você vai virar um macaco ou um jacaré. 

Segundo Darwin, e alguns eleitores, isto já aconteceu...