segunda-feira, 2 de setembro de 2024
preto, pobre e sem perspectiva
Mas teve uma vez que fomos em Fortaleza comprar um óculos pra mim. Fomos de ônibus, andamos de coletivo e fomos até o centro da capital. Chegando lá na ótica, meu pai pediu pra ir ao banheiro e me levou junto. No banheiro, eu e ele, tirou a calça e trazia o dinheiro dentro da cueca. Pra mim, aquilo era, no mínimo, estranho mas continuamos a compra, agora, claro, fora do banheiro.
Ele pagou e vinhemos pra rodoviária. Eu achava muito divertido esse tipo de viagem, pois meu pai era fumante e fumar passou a seu proibido dentro do ônibus. Ele ficava louco! E não se aguentou e foi ao banheiro fumar. Vocês não imaginam o que era isso! Quando ele abriu a porta, depois de fumar, o ônibus era só fumaça e cheiro de cigarro. Ele, nem aí pra nada, sentou e dormiu o resto da viagem.
Lembro que pouca gente falou algo, mas uma mulher ao lado ficou resmungando e ouvi ela dizer para quem estava com ela: tinha que ser preto. Se papai ouviu, fez de conta que não é continuou dormindo...e eu com vergonha, mas não pela ofensa, mas pelo senso que meu pai sempre me ensinou: de nunca fazer algo proibido.
Hoje, agora, sentado na calçada que ele tanto sentou, que tantos o viram ali como se fizesse parte da paisagem, passaram 4 pessoas, 3 adultos e uma criança.
Todos negros. Mas o olhar da criança me tocou de uma forma indescritível.
Minha filha estava comigo, mas ela não conhece aquele olhar. Eu sim! É o olhar de uma mãe jovem que pouco tem para dar. A mãe muito magra e preta e o filho com aquele olhar de necessidade. Talvez fome, mas certamente, um olhar de quem terá poucas chances de ter sequer um pai...
Isso faz toda diferença. Ter um pai, independente dele ser negro ou branco, mas ter um bom pai, inteligente, sensato e diligente, é algo que poucos tem hoje em dia.
Eu estou a anos luz de distância do pai que tive, mas não por ele ter sido a melhor pessoa do mundo, pelo contrário, meu pai era cheio de imperfeições, bruto, mas jamais ignorante. Era uma pessoa admirada por todos e acredite, já foi insultado por alguns, mas nunca na presença dele, mas na minha presença e certamente por ser negro. Mas isso é outra história...
Ser pai é ser homem. Meu pai era um homem de fé franciscana. Uma pessoa quase inabalável. Nem quando jazia no leito de morte, derramou uma lágrima sequer. Dizia ele: nunca troquei uma cerveja por uma mulher... mas eu sei que ele bebeu muitas...
Deus me presenteou em ter o pai que tive, que jamais me deixou com aquele olhar daquela criança preta, pobre e sem perspectiva.
Eis o mundo no qual fazemos de conta que não existe. Onde alguns vivem e tantos outros sobrevivem, sendo estes ignorados e marcados para morrer como indigentes numa sociedade cada vez mais rica de teoria na terra e miseráveis num céu que jamais viverão.
Meu dia hoje será com aquele olhar, daquela criança sem perspectiva. O que posso fazer? Não sei, sinceramente.
domingo, 31 de março de 2024
Atenção, prefeito!
Eu poderia contar mil histórias que vi e outras tantas mil que me contaram. Mas irei me ater aos fatos atuais...pelo menos tentarei. Sei que são poucos que param para ler algo que tenha mais que 3 palavras. E certamente está é a maioria da população, até porque, poucos são aqueles que não são analfabetos funcionais, ou seja, leem, mas não sabem interpretar o que leram.
Estaria eu chamando o povo de burro? Não, apenas que a maioria não tem condição de ver além das paixões, no caso, políticas.
Sou um cara chato, amargo, ranzinza, besta, desocupado e
tantos outros adjetivos que você possa me descrever. Como eu disse certa vez a um,
já falecido, ex-primeiro-ministro da cidade: “se você parou pra ouvir alguém
falar mal de mim, acredite nele e não na nossa amizade”.
Pode parecer meio confuso, mas
logo chegarei ao ponto. Pronto, o ponto chegou.
Quando se é prefeito de uma
cidade onde as paixões políticas são o que movem as peças do tabuleiro, de
damas, pois xadrez é algo incompreensível para estes atores, uma miríade de
gente se encosta no prefeito. Gente que chamava ele ou familiares de assassino,
de trambiqueiro e outras tantas coisas!
Mas é aqui que existe o grande
equívoco, que já vi acontecer...”10, 10!” Existe, e o governante não resiste, o
gracejo do poder. Para simplificar: quem não gosta daqueles lhe abanando,
servindo uvas, enquanto você pensa que é o imperador que tudo pode e tudo sabe!
O ser humano é vaidoso, pois
ninguém gosta de alguém falando mal de você. Então, o que o prefeito faz? Para evitar
o processo judicial: chama aí todo mundo que ama nossa cidade e não se importa
com cargos, dinheiro e outras coisas mais, e vamos fazer uma grande coalizão
pelo bem de Quixadá! Eita, imagina aí se isso fosse verdade, esse amor pela
cidade...ah, aqui seria a Suíça.
Mas sejamos sinceros, isso é
quase irresistível! Aí, onde você anda todo mundo aplaude, quer tirar foto, fica
gritando “já ganhou, já ganhou!” ..., porém, vem o vento e derruba a casa
construída na areia, vem a chuva e leva o sonho da casa própria construída em
qualquer lugar e de qualquer jeito!
Culpa do povo? Não, pois
acredito que todos querem uma casinha para morar, mesmo que ela seja dentro da
lama ou em um lugar onde não existe esgoto ou calçamento! É como muita gente vive
aqui na cidade. E o prefeito, tem culpa?
Eu era menino e já entrava água nas casas da rodrigues jr. Eu nem sabia que existia rodoviária e já entrava água lá também, rua padre Cicero, sem milagres, e tantas outras localidades que eu não faço a menor ideia onde são, mas que entram água também! E a culpa é de quem joga lixo nas ruas? Meu povo, é querer esticar demais a baladeira. Mas digamos que fosse, que todos fossemos uns verdadeiros porcos e estamos saindo na mesma hora, todo dia e o dia todo para jogar lixo nas ruas...ninguém fiscaliza a população jogando lixo nas ruas?
Mas voltemos ao fato principal
que é o descolamento da realidade. Como eu disse, eu conheço o centro do poder
e como ele funciona; já estive lá, infelizmente. Sei como é, onde fica e como
funciona. Só que o atual prefeito tem um grande problema: ele não tem mais a
rádio para avisar que está faltando, digamos, por exemplo, gaze no posto ou que
o dr fulano de tal não apareceu, ou que o carro do lixo não passou na rua sei
que lá ou se a cidade está uma buraqueira só!
Ao não ter ninguém criticando,
seriamente, perde-se a perspectiva da realidade; e este é um mal que o poder traz, pois ninguém quer
se indispor, ninguém quer falar a verdade e a realidade das ruas esburacadas ou
daquele serviço seboso do intertravado. O cedro, ou o caminho até chegar lá,
vira problema do estado, e os alunos da Fadat? São coisas e mais coisas que existem, mas não falam.
E aqui não é alguém que
deveria ter ódio do prefeito, pelo contrário, nutri a esperança nele tanto
quanto muitos que dele se afastaram. Como eu disse, é babão demais num canto
só, e meu pai já dizia: quem muito se abaixa...e eu não tenho essa vontade de
me abaixar para ninguém.
Prefeito, farei este texto
chegar a você, não porque quero o seu bem, mas por lembrar o que eu, como
servidor público municipal, passei quando o PT esteve no poder. A humilhação de
todo jeito, o esculacho, a grosseria e a falta de respeito que esse povo tinha
comigo e com aqueles que eram “contra”. Se fosse contar aqui, dificilmente
alguém acreditaria, mas é algo que passou e eu espero não passar mais por
aquilo.
Dr. Ricardo, já fui seu fã. Já
fomos amigos, pelo menos da minha parte eu o considerava como da família. Porém, grandes homens se juntam para fazer o bem, enquanto homens pequenos se separam
para fazer o mal um ao outro. Este que vos fala, sabia das suas boas intenções
e até hoje não duvido delas, mas muitos desses que estão a sua volta, ao seu
redor, rondando-lhe como as hienas fazem quando estão para comer o grande leão
ferido, querem apenas o bem próprio, não se importando com a população que
tanto gosta de você.
Reaja, pois ainda dá tempo. Pare
com essa de “já ganhou, pam pam pam”. Isso é coisa de menino mimado que não
está nem aí se o circo pegar fogo! E inteligente como sei que você é, veja um
dado importante: desde que o ex-prefeito Ilário Marques saiu e entrou o Dr.
Rômulo, ninguém se reelegeu. O próprio Romulo, depois o 10, 10, tivemos o Ci,
depois Ilário, João Paulo por alguns meses, Ilário e você. Esse balanço
político diz algo que é muito nítido: muitas lideranças trocam de lado por esse "amor a Quixadá". Muita gente não tem vergonha de lhe chamar de vagabundo hoje e
amanhã está de braços e abraços com você.
Eu sei e você sabe que eu estou
falando, não a verdade, mas a realidade. Se afaste desse sol maravilhoso que é
a vaidade e se curve diante da necessidade do povo que o elegeu. Tem gente do
seu lado que está apenas ao seu lado, mas que só conhece o próprio lado. Como disse,
eu poderia ficar calado e fazer de conta que está tudo bem, pois de certa
forma, é mais fácil ficar calado do que falar esse tipo de coisa; é mais cômodo
e talvez, mais seguro.
No mais, espero que aqueles que estão passando necessidade, com os alagamentos, tenham melhor sorte e que nós, privilegiados, consigamos nos ajudar, vendo o que é preciso ser feito para melhorar a vida da população.
Melhor tirar a venda e sofrer, do que continuar
vendado e continuar sofrendo. Quixadá merece mais.
segunda-feira, 11 de março de 2024
Certa vez, em 2013…
Não “era uma vez”, nem um talvez, foi uma vez e não apenas naquele momento, mas em muitos outros. Vínhamos em 4 conversando sobre política e coisas afins e de repente Pedim disse assim: “mah tu já imaginou, eu sem sinal numa época dessa”...e continuou: “mas imagine aí como era em 90 e tanto que não tinha nem celular e nem internet”.
pois é, imaginemos…
O que vivemos hoje, em termos…aliás, em todos os termos, hiperconectados, nos faz mal e um mal sem precedentes na história da humanidade. E eu pergunto: onde vamos para com isso? Tudo, hoje em dia é comunicado, é dado notícia, é postado, curtido, compartilhado e mais uma infinidade de outras coisas; mas de certa forma, é apenas uma forma de pedirmos socorro de nós mesmos!
Quem hoje em dia é capaz de sair de casa, primeiramente, sem levar o celular? Só isso já soaria esquisitíssimo! Mas quem é capaz de, estando com o celular, não fotografar um almoço ou uma simples caminhada? impossível! Como eu disse antes, nós nos acostumamos a dar notícia de tudo que fazemos e onde estamos. Mas eu te pergunto: onde estamos?
Não estamos bem, com toda certeza. E cada dia mais, cada vez mais, aquilo que deveria ser um milagre do mundo tecnológico, se tornou, literalmente, uma algema digital. Tenho 43 longos anos e sou incapaz de dizer quando estive sozinho comigo mesmo por mais de 24hs! É quase que uma insanidade imaginar algo assim, e pior, se você “some”, provavelmente ninguém “dará fé” do seu sumiço…ou do meu, sei lá.
Porém, uma coisa é certa: ninguém nunca me ligou dizendo que eu havia ganhado na loteria ou, menos ainda, ninguém nunca me mandou uma mensagem dizendo: estou aqui e me importo com você. Acredito que nos damos importância demais, demasiadamente. O mundo, claro!, continua girando independente de sabermos disso ou daquilo ou se vimos a última postagem de quem quer que seja! A natureza humana pede, e a humanidade se autoignora.
Sim, fazíamos isso diariamente, nos importávamos uns com os outros, ao ponto de ir na casa das pessoas! E pasmem, sem avisar antes. Deixa eu explicar como era: toc toc, e aí!!!! A mágica acontecia. Claro que cada um tinha seu ritual de encontrar-se fisicamente com os amigos, e para o espanto de todos, conseguir prestar atenção no que as pessoas amigas diziam, sem desviar o olhar para a tela do celular.
Sim, o celular é meu inimigo. Como disse meu amigo: “já imaginou um negócio desses?” Imagino todo dia…o que eram notificações em 1990? Acredito que poucos de nós saberíamos usar tal palavra em um contexto bem extenso… nesse tempo, tínhamos até apelidos, não éramos tão brancos ou negros, nem tão lgbt…o mundo era analógico e o amor era muito mais do que esta palavra tão esquecida. Sim, o amor existia sem que precisássemos “dar notícia” dele.
Saudosista demais este rapaz? Com toda a certeza! Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que estou pensando seriamente em abandonar esta tela. É o vício dos vícios! É literalmente a amplificação do vício. Beber? Vamos marcar. Jogar? Vamos marcar. Sexo, drogas e nem o rock and roll existem mais! “Esquema”? era esperar passar em frente ao colégio ou na calçada. Tudo fazia sentido e nada precisava ter sentido. Nossa conexão era lenta, porém, duradoura. Nossa necessidade de mais e mais e mais e melhor e pior e sei lá mais o que, era apenas quando as coisas estavam muito ruins…
Sim, a humanidade falhou. Estamos condenados a vagar pela tela super amoled ultra-hd gorilla glass infinito! O homem se tornou mulher, a mulher perdeu a graça e a "minha nossa senhora", só deus sabe!
Talvez, se eu saísse agora da tela, eu melhorasse como pessoa e melhoraria em pessoa. O “eu” nunca esteve tão presente entre, literalmente, nós. Vamos tentar viver sem? Se a resposta for "impossível", lamento, pois padecemos do mesmo mal. quem sabe diminuir e aumentando a ausência do aparelho...quem sabe consiga, sei lá. Tentamos ou está bom assim mesmo? Enfim, a vida é aquilo que acontece ao nascermos. Viver é aquilo que se faz antes de morrer. Então, cada um escolhe como viver.
Vivemos a ampliação do nosso ego, em detrimento da busca de sentido que a vida deveria ter. Concorde ou não, está é minha opinião. Certo ou errado, nem o tempo dirá...
sexta-feira, 22 de dezembro de 2023
Cadeado
sexta-feira, 24 de novembro de 2023
A quem der mais!
Não sou cobra, mas cobro.
Não sou rico, mas há risco:
No chão e no ar.
Do que sou feito?
Defeito.
Do que tenho medo?
Segredo.
Em que acredito?
Omito.
E quem sabe?
Ninguém.
Se tem, invade.
Se vem, metade!
Não sou completo!
Porém, repleto
De medos e aparências
Entre outras tantas evidências...
Para findar o papo:
Cansei, de fato,
De ficar escrevendo
E vc prevendo
O que vou rimar.
Não há! Admita,
Pepita nesses dizeres.
Só há lama
Que se derrama sobre mim.
E assim, o fim,
Como velho começo,
Vou de frente pro avesso
Ao risco e aos fatos.
Pois, entre tantos retratos,
De mim, não será assim
O novo velho e presente começo
Agradeço a impaciência
Porém, a inconsistência
Que me é peculiar...
É de família? Talvez.
Nós três: eu, tu e ela
Foi uma prequela do que virá.
Fim, por enquanto.
domingo, 13 de agosto de 2023
Em respeito a minha própria hipocrisia
Não costumo medir-me pela
régua dos outros, mas um dia como o de hoje, o tal dia dos pais, é um exemplo
que carrego da hipocrisia que vivemos.
Falamos muito de respeito
pelas pessoas, de amor ao próximo e tantos outros bla-bla-blas que tentam e
conseguem nos enfiar goela abaixo. Passaria aqui horas citando, mas prefiro
pular esta parte.
Num desses dia dos pais, cheguei
pro papai, já sabendo que ele odiava esse tipo de demonstração e falei: “meu
pai, deixe-me lhe dar um abraço e felicitações pelo dia de hoje”. Ele ficou
olhando e automaticamente se encolhendo na cadeira a medida que eu me
aproximava, ele ficou tão pequeno na cadeira que quase era ele a me felicitar!
Brincadeiras a parte, ele disse assim: “não sei porque você está me felicitando,
eu errei tanto...” Eu não contive a risada e ele também não.
Na segunda-feira, como de
costume, o grande irmão e meu segundo pai, Bentino, chegou meio dia pra tomar
aquele café. Sempre parávamos ali na cozinha para papear e aproveitei e disse
ao Bentino do ocorrido de ontem, assim: “ Pois é Bentino, ontem, dia dos pais,
fui dar um abraço ai no papai e ele disse que tinha errado muito comigo”.
Bentino, engraçado e tirador, disparou sem pena em minha direção: “Negrones, eu
seguro e tu abaica!”
Eles queriam me bater! Kkkkkkkkkkk
A risada foi geral.
Fui aquilo para quem foi, não
há hoje homenagem que desfaça o que fiz ou o que deixei de fazer; o que está
feito, está feito! Não foi perfeito e jamais será ou seria. Por isso temos que
pensar nas pessoas e em nossas atitudes para com elas, independente de quem são
ou que dia é.
Basear um amor e uma dedicação
a um único dia, é, no mínimo, uma baita hipocrisia. Hoje não é, pra mim, nem de
perto um dia a ser lembrado. Tanto faz acharem que é dia dos pais, das mães ou
dos filhos, importo-me com aquilo que estou fazendo e principalmente com aquilo
que deveria fazer e não estou.
Nessas horas, gosto de citar parte
daquela música, quando eu me chamar saudade: “se alguém quiser fazer por mim,
que faça agora...depois, quando eu me chamar saudade, não preciso de vaidade,
quero preces e nada mais...”
E é assim que gosto de lembrar
daqueles que partiram: alegremente e diariamente. Não preciso postar nada nas
redes sociais, pois tenho consciência que apenas o meu ego estará vendo.
A lembrança é um coração
pulsante e não um coração partido, pois se partido está, dói; e se dói, algo
foi feito errado, mas o passado, ninguém pode mudar. No mais, cada um responde
pelo que fez e pelo que deixou de fazer. Assim como cada um responde pela dor
que carrega. E sobre o dia de hoje, a mim não diz nada.
segunda-feira, 5 de junho de 2023
Nossa realidade
Dali mesmo, da calçada, vejo
um moleque sentado ou uma senhora, na calçada vizinha, como diria Raul: com a cuia de esmola na
mão. Quantas vezes já falei sobre isso? Quando saio dali, da calçada, e pouco
faço isso, venho para o trabalho, paro no "sinal" e chega um moleque
pedindo pra eu comprar pastilha.
Eu nunca ando com células ou
moedas. Meu dinheiro é aqueles números que o saldo do banco me diz possuir.
Nego a compra e ele me pede uma moeda, digo que não tenho.
Mais que uma reflexão sobre a
situação dessas pessoas, reflito sobre o que eu poderia fazer? Vejo políticas
públicas voltadas para essa situação? Você vê?! Conte-me! No "sinal"
são 3 pobres pretos, talvez irmãos que certamente nunca leram um livro, mal vão
à escola e se vão, a merenda é péssima e provavelmente a sala é quente e são
tratados como, na voz do capitão Nascimento: moleques.
Desconheço qualquer investimento
social maior do que em educação. Nessa pandemia, demos, pois o governo dá o
dinheiro que é nosso, bilhões e bilhões em auxílio emergencial; PEC's foram
feitas, teto de gastos esquecido, filas que davam voltas em lotéricas e bancos...,
mas você acha que algum livro foi comprado?
Eu soube de tabletes comprados
pra crianças, mas só pra nós aqui, quem hoje consegue passar mais que 20
minutos lendo sem olhar um instante no celular? Aí você dá um tablete e espera
que a criança estude? Os governantes não entendem as necessidades do povo;
acham que é como dar comida a galinhas: só jogar o milho no chão e pronto!
Mas meu ponto aqui é simples: o
real investimento em educação não é educar, mas sim tentar explicar onde se
chega a partir da educação.
Estudar nos liberta. Se você acha
que há uma escravidão eterna entre brancos e pretos, então qual é a vantagem?
Por quê, até onde eu saiba, R$600 de auxílio não transforma ninguém. Sequer
alimenta! Mas a educação, desde a base, sendo esta a mais importante e a mais
negligenciada, é sim e sempre será o principal fator de libertação humana.
Assim como uma arma de destruição
em massa, a educação é uma arma de construção da massa, mas não essa educação
que só vê a valorização financeira dos profissionais. O dinheiro não faz uma
causa; Professores tem que ganhar bem? Sim, assim como o faxineiro, o gari, o
médico, o policial etc.
Todo profissional tem que ganhar
bem! Mas a quem é relegado o salário-mínimo? Adivinhem? O trabalhador que
provavelmente não estudou.
Nossa pirâmide social é gigante e
ignorante. É daquelas que chega num estabelecimento de saúde público, é
maltratada por profissionais despreparados ou mal pagos, com excesso de horas
trabalhadas, médicos que dão plantões e mais plantões de 24hs, trazendo para si
o cansaço de "atender esse povo" e acha, o povo, que a festa na
praça, milionária, nada tem a ver com aquela situação.
Não estou falando especificamente
da nossa cidade, mas sim, de todo país.
Não preciso sair da calçada para
me informar que, mesmo em situação de emergência de saúde pública decretada
pela pandemia, muitas prefeituras tentaram e fizeram festas e mais festas
milionárias. O pão e circo nunca foi tão banalizado! Sequer disfarçam mais. Os
políticos contam com sua ignorância para continuarem a criar problemas e
soluções que nada resolvem.
Eu, sinceramente, estou cansado
de ver a mesma coisa sempre. Todos querem mais e mais, mas ninguém está
disposto a refletir sobre os reais problemas. Nem mesmo o povo quer, pois nem
sabe que pode.
Vivemos a época do espelho e do smartphone.
O culto narcisista ou a ode digital da aparência perfeita. Estamos muito
apressados e ocupados com 300g de frango, 100g de arroz, 45cm de braço e whey!
Nem os cílios são mais nossos. As unhas, postiças; a vida, “perfeita”. Ninguém
caga e nem fede. Mas as crianças pobres continuam nas ruas. As ruas continuam
esburacadas. A biblioteca pública tem livros desatualizados. As escolas, com
professores valorizados ou não, continuam produzindo uma massa amorfa,
disforme, mas altamente viciada em dopamina. É a dancinha do TikTok, o
influencer, o clickbait, a curtida e tantas outras coisas efêmeras.
E interessante, que dizem que o
atual presidente universalizou o ensino superior...não, ele facilitou o acesso a
algo que deveria ser superior, difícil, custoso, trabalhoso, porém transformou
a “universidade para todos” em uma universidade para qualquer um. Acabou com a
reprovação no ensino fundamental. Institui piso para diversas carreiras, mas
esqueceu, agora incluo todos os governantes, que a massa continua com seu piso
salarial mínimo.
Mas tudo é de comum acordo com o
povo; este, merece o governante que tem. O povo está cada vez mais sabido e
cada vez menos inteligente. A vida virou aparência, enquanto a natureza do
homem continua a mesma: longe do criador, querendo, a criatura, ser maior que Deus!
segunda-feira, 24 de abril de 2023
Fatoração
No mundo de hoje, é quase
impossível não saber o significado de uma palavra ou expressão. Fatorar, na
matemática, é uma série de divisões de um número; claro que posto de uma forma
bem simplória! Até porque, matemática é de longe meu fraco!
Mas, mesmo assim, os
problemas, tanto matemáticos quanto aqueles que a vida nos proporciona...ah, um
belo parêntese aqui: a vida não se importa com as nossas circunstâncias! Frase mais
que dita, sentida...voltando em 3,2,1... a vida nos dá oportunidade ou de
continuarmos errando a fatoração dos problemas ou chegar a um denominado comum.
Costumo ver os problemas
assim: identifico, racionalizo e fatoro. Dividir os problemas é a forma mais
eficiente de atacá-los. Os problemas têm essa fraqueza existencial, pois são incapazes
de resistir a uma mente equilibrada e sabedora daquilo que quer. Até porque,
nada resiste a uma mente constante e equilibrada. Evidentemente, depende do tipo
de constância a qual estamos nos referindo e ainda mais ao tipo de equilíbrio
ao qual estamos expostos.
Ao fatorarmos os problemas,
olhamos para o âmago de seu ser e nos apoderamos daquilo que nos antes era fraqueza.
Aprendi, as duras penas, que só existe um alguém importante na nossa vida, e
este somos apenas nós mesmos. Algo que sempre falo: se não existirmos,
fisicamente, o que mais existe?
Há em nossa mente, na parte
anterior do lóbulo frontal, uma região que nos faz refletir sobre o que estamos
a pensar, sentir e afins. É como e quando olhamos para o que estamos pensando. É
tipo aquela conversa consigo mesmo, tipo: por que estou pensando tanto nisso ou
porque pensei nisso? Serei um monstro?
Não! Por sermos conscientes da
nossa consciência, refratários de nosso destino, aqui, no sentido de sermos
rebeldes, continuamos numa busca cada vez mais profunda, rumo a um desconhecido
chamado nós. Não seria por isso, então, que a humanidade anda tão doente? Talvez
tenhamos nos esquecidos que devemos servir ao senhor nós mesmos.
É isto, simples assim? Seremos
nós apenas por nós mesmo? Jamais! É o que sempre diz o excelente Wesley
Barbosa: somos mamíferos e como mamíferos, vivemos em bando. Ninguém é uma ilha
e aqui, como todo tolo, morre a certeza. Não existe certezas ou coisas certas. Nos
números também não existe algo absoluto, pois tudo é relativo a algo.
Divaguei, eu sei, mas divagar
é preciso, é preciso e devagar. Nesse jogo de palavras, as frases se amontoam e
entoam aquilo que mal consigo prever...começamos pelos problemas e terminamos
pelas soluções. Tudo aquilo que nos é custoso, abandonar ou abraçar, é
necessário para o nosso crescimento.
A reflexão faz parte da nossa
vida. E, ao refletirmos diante da nossa miséria, ao sentarmos lado a lado com
nossos problemas, olhando para eles de fora e um pouco mais de distância,
veremos que eles não são tão grandes, feios e doídos como nos parecem.
Algo que carrego comigo desde
hoje: um covarde diria “o que os olhos não vêm, o coração não sente”. Eis que
me recuso a sentar lado a lado com um covarde! Problemas velhos não trazem
novas soluções, pois a mais simples esperança de melhorarmos como seres
humanos, vem da atitude de não aceitar as migalhas que caem da mesa, pois se há
migalhas, há alguém comendo o pão.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023
Carnaval... “Lembro a saudade que hoje invade os dias meus; para o meu mal, lembro, afinal, um triste adeus”
Não sou um qualquer, menos
ainda qualquer um; ninguém deveria ser, pois deveríamos todos sermos
especialmente especiais, únicos em imperfeição. Mas dentre meus defeitos, a
saudade, como uma roupa em farrapos, de tanto usá-la, se nega a partir. E eis
que espero dela, jamais me despedir...pelo menos não tão cedo.
Estaríamos aqui, nesta época
carnavalesca, rumando ao Triunfo, ali depois da Ibaretama, para a vivenda Sheila
Maria. Um lugar onde várias outras tantas famílias se reuniram por décadas, em
várias datas festivas, comemorativas e afins.
Mas nós, de posse do empréstimo
da casa, íamos no carnaval. Eu não conheço esta data como a maioria das pessoas
conhece. Como não bebo, não gosto de aglomerações, não cheiro e não fumo, sou
tipo careta, mesmo sendo um baita sonso. Como diria Nelson: Só as paredes confesso...
E nessa infanto-adolescência,
nesse tempo hoje tão saudoso, íamos passar o carnaval por lá, no Triunfo. Desde
já, certa vez, fomos numa rural, salvo engano emprestada pelo chico Martins;
era coisa demais nessa rural: desde gente, a comida e uns ótimos pães feitos
pela “irmã suelo”.
Como muitas vezes fomos para lá,
farei um mix de lembranças!
A viagem da rural era muito
clássica. Desde a saída, aquele cheiro de fumaça, diesel e só deus sabe mais o
que, ainda hoje entranha as lembranças. Chegado lá, íamos, digamos, fuçar os
quartos, pois me diga se não é isso que os ratos fazem quando os gatos saem?
Melhor dizendo, íamos direito olhar piscina!
Não éramos pobres, mas, porém,
humildes demais para ter uma piscina em casa. A piscina pequena, mas era a
glória em forma de buraco e água. Simples, não?
Papai já se ajeitava com seu
som cassete e as eternas marchinhas carnavalescas. Era fita atrás de fita; era
o que se tinha de mais perto de uma folia! Deus sabe o quanto era bom aquele
tempo...
Mas a piscina não estava
cheia. Tínhamos que esperar pelo menos um dia pra que ela enchesse. Na primeira
noite sempre existia essa expectativa da piscina encher. Passávamos a noite
acordado, tentando fazer o outro ter medo do quadro do Mickey. Juro, ele era
fantasmagórico! Reza a lenda que o Mickey se mexia no quadro. Era um terrorismo
total.
Mal raiava o dia e já
estávamos lá de pé, frente a piscina. Não importava se tinha enchido ou não, o
que importava era que tinha água no buraco e dava, quase, pra fazer aquele “timbum”.
Porém, estamos esquecendo a merenda. Recordo demais o nosso saudoso Joel,
olhando pra mim querendo perguntar quanto de café tinha que colocar na xícara.
Certamente, tanto ele quanto o “dodim” jamais havia tomado Nescafé. Eu, sem
muita malícia, disse que podia botar o quanto quisesse...eis que botaram café
demais! Porque você colocar 3 ou 4 colheres de café numa xícara...Nunca esqueci
isso!
Passada a fase da acomodação e
estadia, a piscina era o foco. Enxia, não enxia. E papai já estava trabalhando
naquele litro de cana. Pra ele, que jamais havia comido chocolate e não sabia o
que era beber Coca-Cola, cachaça era o extase! Litro e meio desciam fácil...
Mas o que mais me
impressionava nele, era a capacidade de beber sozinho, escutando um mix de
carnaval-marchinha e “a volta do boêmio”. Não havia nada que o atrapalhasse. Perna
cruzada, cigarro na mão, óculos escuros, fita ia fita vinha e ele não dava uma
palavra.
O que tento hoje a todo custo,
fazendo meditação ou respiração controlada, papai fazia com cana, um sonzinho e
o eterno cigarro. Ele entrava num flow inatingível. Vez ou outra alguém gritava
lhe perguntando algo e ele, acho eu, nem escutava, assentia com a cabeça. Ninguém
sabia se era sim ou não, mas estava respondido.
O meio-dia chegava e com este
chegava o almoço. Nós, meninos, mulheres e crianças, não tínhamos a prioridade
de comer primeiro, era o atual dono da casa; um flagrante caso de respeito aos
mais velhos!
Até aí, aparentemente, nada
demais, mas era uma cena foda! Papai comendo aquela panelada quente, com cuscuz
e arroz, levantava-se e sem nada dizer, mergulhava na piscina. Ficávamos absortos,
incrivelmente maravilhados com a destreza e a coragem, pois quem tem essa
coragem de mergulhar numa piscina após comer uma comida quente e pesada quanto
aquela?
Diga-se de passagem, até hoje
a mamãe diz pra não abrir a geladeira, porque ela comeu caldo quente...minha mãe,
o que é um caldo quente e uma geladeira, frente a um mergulho triplamente qualificado,
após uma panelada! Claro que se ele estivesse aqui, diria a ele que sobreviveu
ao mergulho, mas...
Saía ele doutro lado da
piscina, com aquele calça azul-marinho e pasmem! De óculos. O homem era um
super-herói! Voltava, sentava, uma terça de cana e mais marchinha.
Aqui uma coisa interessante:
com o passar e o avançar do dia, a marchinha dava lugar a “boemia”. Aparentemente
papai já roía muito antes de conhecermos Bruno e Marrone ou a lendária Marília Mendonça.
Aqui cabe dizer que será o nome da sua neta, meu pai, Marília.
Voltamos...
Nelson Gonçalves, Amado
Batista, Ataulfo Alves, Reginaldo Rossi e tantos e tantos outros, faziam a
festa!
Como disse logo no começo “lembro
a saudade que hoje invade os dias meus...” Que me desculpem todos os viventes,
mas até hoje, só consigo lembrar e chorar, ao mesmo tempo, deste homem chamado meu
pai.
Todo tem seus amores e suas histórias,
dedicando publicações e fotos, mas eu tenho uma vivência e admiração por este meu
pai. Não por ter sido alguém, mas por ter sido tudo que eu jamais serei.
Posso fazer mais e melhor, mas nunca igual.
Os carnavais irão passar e com
ele novas histórias, boas ou ruins, mas nada se comparará a estar naquele Triunfo,
com aquele ambiente, com aqueles que já partiram. Só tenho a homenagear e pedir
a deus que tudo transcorra da melhor forma possível.
Que todos tenham um bom
carnaval, mesmo eu não gostando da data...como disse antes, nada se compara com
aqueles velhos e bons tempos...
