sexta-feira, 5 de março de 2010

Decameron

Raízes de finco bruto que a sede enverga.
Vozes festivas no altar dos mortos, cedo.
Ali, onde não anda mais ninguém, por medo,
Cede à causa liquida e findada que governa.

Antro cáustico das matinas mais permissivas.
Fronte prisioneira do fluente suor plebeu,
Toda e qualquer sonora, aqui ou lá, és meu!
Meu sonho partido, meu lugar sofrido: morreu.

Prata: a sombra que polue no lugar das distancias.
Bronze: suor de linho ao pelar da carne morta.
Pouco se sabe ou nem se quer importa.

Muitos se contentam com o triste passo adiante.
Quisera eu desejar tão óbvio destino , mas
Saber se nada vai por ser, o que nada se faz?

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Percurso.

Nessa estrada sem dono.
Nessa colina desterrada.
Nesse alvoroço uníssono,
Essa dor é quase nada!

Esse alívio é passageiro.
Essa dívida, forjada!
Essa estrada de nevoeiro,
Neva sonhos e mais nada!

Prego os olhos na curva.
Prego no pé do sapato.
A vista, focada e turva
Alinha-se mal ao retrato.

A linha desperta o sono
O sono mata o criado.
O criado foge do dono
O dono não manda nada.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A flor que a noite aguarda.

Todo dia, uma flor nascia e um amor morreu.
Mas nem via ou sentia um a outro.
Até que veio um vento forte,
Um som imenso,
Um momento,
Um toque...
Todo dia, um amor nascia e uma flor morreu.

Mas quem diria? Quem ousaria?
Ninguém respondeu.
Nada se ouviu. Nada se fez.
Nada, porém, podia ser:
O mundo hoje foi longe demais.
Naquela noite, naquele toque, algo acabou.

Mas que ninguém prometa, nem amargure.
Todo dia... Toda hora... Todo beijo
Todo rumo perdido... Um afim de sentidos.
Um amor escondido já me basta sentir.
Um toque. E tudo que penso:
Aquela noite, por todo dia...

Todo dia essa flor nascia e ninguém viu.
Houve o toque. Houve o cheiro.
Ouve a caricia e o afago discreto?
Há muito eu havia,
Mas quem mais ousaria?
Um velho bordão usaria:
Por que não eu?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

...se o futuro é a morte?

Perdido na noite; perdido no dia;
Não importa a hora nem a dor.
Não importa a vida nem a cobiça,
Pois quem age em preguiça,
Nem que a demora seja ligeira,
A hora da morte é passageira
E a da dor é bem vista;
A boca da noite é revista
Que se lê aberta.
Que nos fala sem demora,
Que nos visita sem pressa;
Avalia o que nos resta,
Alivia o que nos mata.
Dá-nos fortuna e arrebata
Para tão longe quanto se vê...
Lá pelos fins dos dias,
Lá pela boca da noite,
No calar do açoite,
No soar do badalo,
Abre-te num longo estalo:
A cortina findoura.
É a hora das horas;
O matizar das viúvas;
O crepúsculo da aurora;
A hora da hora.
A cena passageira.
Que mesmo ligeira,
Que mesmo sem graça,
Desce em pranto e desgraça.
O que nos resta agora?
Cinza e rebeldia, contida e contada;
Morta e dizimada
Pelo condão da fortuna!
E por ver que algo nos resta...
Assim como no inicio,
É tudo conversa!
De onde não estamos por apego?!
De onde fincamos os corpos,
De onde morremos e mortos
Somos dizimados!
O último suor deixado,
A eternidade ser levado.
Agonizo pelos pecados
De uma vida pregressa,
Onde ser vivo é preguiça
E preguiça é meu nome!
Mas dizem ao velho homem:
Pra que pressa...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Encontro rio no mar.

Enquanto eu escondo meus sonhos, você se mostra em vida;
Enquanto eu vôo pelas nuvens, você caiu pelas calçadas;
Enquanto eu saboreio o sol, você amarga noites sombrias;
Enquanto eu vago pelo céu, você se destrói nesse deserto;
Enquanto eu rio na minha cama, você, inerte, chora no chão;
Enquanto eu passo pela dor, você vive nela se destrói;
Enquanto eu sou o que sou, você não aparenta o que é.

E quando eu fujo dos problemas, você encara-o livremente;
E quando eu choro pelos cantos, você encontra as soluções;
E quando eu caio e quebro a mão, você me levanta como sempre;
E quando eu olho o teu rosto, você não é mais a mesma pessoa;
E quando eu sinto tua face, você se afasta de mim;
E quando eu tento agarrá-la, você só me deixa um adeus;
E quando eu volto à realidade, você já me esqueceu.

E quando o rio colhe minha alma,
A tua lembrança me é pertinente,
Solto o grito na mais pura calma
Como se gritar fosse decente.

Como se algo eu pudesse romper
E essa força quebrasse a corrente!
E nesse ciclo e pudesse rever
O que mais ainda, eu passe a ser gente.

No escuro, na calma destituída,
Morre enquanto passo pela dor.
Uma tal que corrói a vida
E a vida perde o seu real valor.

Passaria, enquanto olho teu rosto,
Mais um dia, enquanto perco tua mão,
Inerte, sem provar do teu gosto,
Sem saber o que é machucar.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Hoje to meio assim...

Pele de cordeiro, orelhas de lobo.
Coração de guerreiro, na boca da noite.
Chama-me coração, de novo,
Não sabe que durmo?!
Nem imagina que sonho?!
Pele de besouro, orelhas de gavião,
Olhos que se dilatam, provocam este tolo.
Emoção que se esvai, olhos que vão;
Permito sem permissão.
Prevejo sins e nos nãos, mas está por lá.
Deixado sem dono, alvejado por tudo.
Cravado de inocências desumanas,
E de humanas inocências...
Pele voraz, insano algoz,
Coração diabo sem dono e sem lei
Faz o que diz, quer o que quer.
Dá-me um nome! Dá-me!
Nem que seja passageiro; ligeiro,
Meus sonhos estão acabando!
Preciso me decidir onde vou parar.
Meu pra sempre está perdido,
Lá, no mausoléu da fome.
Pele de cordeiro, orelhas de pedra,
Escutas meu nome, e o que vês?
Nada. Eu sei. Vezes e por vezes a sua procura.
A saber: já foi minha cura
Já foi o meu querer.
Nem sei do que falo, nem o que não digo,
Mas tem alguém aqui por dentro me pedindo.
Tem alguém implorando o silencio.
Mas mesmo que exista
O silencio nunca é real;
Meu coração dispara e diz que está por ai...
Não sei onde e nem se está bem.
Passo por peles de todas as peles,
Mas só a tua me chega.
Só a tua me implora pra ficar.
Não a quero, mas ela me quer!
Você me quer, mas ainda...
Ainda não vê o que eu vejo e nem sabe.
Pele de cordeiro?! Já fui e tive.
Hoje sou réptil trocando a pele.
Passando por dores e sacrifícios.
Minha alma nem mais tenho,
Perdi quando a desejei.
Mais um amor ou apenas um par de mãos?
Sobrepostas e intocáveis!
Pele de cordeiro, orelhas de trovão.
Besouro que veste rubro,
Amor que veste o veneno.
Já foi pequeno, hoje é gente.
Com rosto e fama suficiente,
Pra fazer o mundo parar.
Mesmo estando por todos os lados,
Ainda vejo uma fresta que o sol inclina.
Seu poente sorriso e seu beijo nunca sentido;
Sem nunca tocar sei que gosto.
Sem nunca olhar, sei o que vejo.
Sem nunca sentir... Isso não posso falar.
Sinto-lhe pelos dias que não tenho o seu sabor.
Pele de anjo, pelo céu se finda.
Diz que vai estar linda quando encontrar o céu,
Não o que Deus mora, mas o da minha boca.
Diz que vai estar com esse cheiro que sinto agora,
Não o da saudade, mas o da verdade:
Hoje to meio assim... É por mim?
É por tudo? É por nada?
Mais um coração, ou mais um pedido em vão?
Pele de nuvem que esconde meu sol,
Se for pra ser eclipse que seja o maior de todos!
Se for pra ser sincero que seja por um minuto,
Pois meu coração não agüenta
Mais um dia assim sem você.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Ih, deinha...

Somos sementes no mesmo barro
Nascidas do mesmo chão.
Trocamos certeza pelo acaso
E muitas vezes, sim pelo não.

Colhemos frutas com ou sem casca
Na beira-rio de qualquer nascente.
Pra não lembrar as saudades
Que nos esperam pela frente.

Que nos entregam a sentimentos...

Vivemos como tristes covardes,
Fincados na terra do medo!
Com o mesmo nó da liberdade
Amarrado no corpo ”azedo”.

Ouvindo mais uma chegada;
Ouvindo mais um sermão:
“Quem dera sorrir nos sonhos
E deixar de lamentação “...

Quem dera ter o amor agora,
No raiar tardio da plenitude.
Mas meu pensamento vigora
Só com vontades e nada de atitudes.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

24 horas.

Minha distância; minha reluta inconstância.
Meu trabalho mal pago. Minha bruta esperança;
Meu relato aplicado, dizem que já passou.
Terminou. Acabou. Redimiu. Acabou. Lutou?!
Nem tanto e pra meu espanto, meu descrê enjoado,
Tudo ainda pode ser nada e nada, agora, é nem tanto,
Que para o pobre coitado, para o pobre e vagante,
Nada é melhor do que antes, que nada havia lá.
Do quê falo? Do que rio? Lágrimas? Estio?
Alívio? Relutância? Descrença? Abundância.
De fatos e relatos. De gritos e sussurros.
Grotas e murros; pedras e viradas, punhos e punhaladas.
Enredos e cantos. Rios e prantos. Rumas e molhadas
Rotas de fuga, rotas de surra, rotas de nada.
Não há caminho a seguir, nem caminho a perder.
Não há lá ou aqui; eu ou tu. Nós ou...vozes ao fundo....
Nozes ao mundo! Eles sabem da verdade, mas minha distância...
Pobre fragrância, podre agrado que reluta em ser mal pago,
Não redime e nem prospera... Espera! Isso sim faz sentido!
Espera comigo. Tenho medo de estar só.
Tenho medo dos homens. Tenho medos das mulheres.
Tenho copos e colheres, queres? Me queres? Espere.
Tolere meu hábito imundo, de olhar nos olhos do mundo
E saber quem sois. E que não há caminho a seguir,
E nem rosto a lembrar. Não há, não há. Sei que vi, mais ali.
Lá. Vá! Corra, ainda é tempo! Nada vai ser como antes!
Nada vai surgir de novo. Nem tanto e pra meu espanto:
Pobre coitado vive exilado. Deste lado, do outro lado;
Naquele porão imundo, fedido e confuso. Será escravo?
Será doente? Será descrença? Será que será?
Vozes ao fundo: “O que dizem as punhaladas?” Nada. Nada.
Nada e não chega a lugar algum. Nada, nada, nada,
E só vê o lugar comum. Vaga, vaga, vazio e transparente, nem sabe
Nem sente nem imagina o frio que faz. Não sabe onde fica,
Não sabe aonde vai. Vai sem querer ir. Vai pra onde quiser ir.
Vai. Apenas uma última tragada... Não sabes de nada e nem queiras prever,
Pois quem mata o tempo, mal tempo pode ter.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

“Malagradecidos”!

Movam os discos empoeirados da vitrola.
Que tantos discos são estes? Servem ainda?
Servem pra sentir os dedos no passado,
Servem seus donos como finco a nostalgia.
Carecem de sabor e enegrecidos de poeira
Passam tempos e tempos sem mover...
A máquina que não redemoinha.
A sorte que esquecida pela “engancho”
Vai de vento em vento num suave redemoinho...
Olha como roda... Olha como me olha!
Vem distante seu sabor, ainda esquecido,
Deixando-me sem palavras, mas com saudade.
Dos bailes. Das marchinhas. Dos pierrôs.
Das noites sem tanta luz. Do mudo som da noite.
Das roupas que tanto me serviam. Do luar.
Do gelado e enegrecido sabor da vida.
Aonde os tempos bons foram?
Por que me deixaram aqui pra morrer de saudade?
“Malagradecidos”! Tantos que lhes dediquei...
Uma vida inteira “de vitrine”!
Querendo-os e sem ver que o tempo passou,
E não pude comprá-los. Nada pude fazer e tê-los.
Atrás de mim passou o tempo. Passou a banda.
Não existe mais praça. Foram-se as modinhas.
Acabou pirraça. Morreu Colombina. Morreu Amélia.
João se foi; se foi José. Passou a vida,
E eu só consegui ficar, aqui, em pé.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ontem perdi algo...

Trazia em mim; deixava comigo.
Era parte de tudo que tinha!
Era parte de uma parte especial...
Era um dia; eram todos os dias.
Era uma vida; era uma única vida.
Mas como deixei passar?
Muitas dos dias não podemos vencer.
Como deixei perder?
Muitas das lágrimas são sem querer.
Deixei me iludir tão fácil, por quê?
O coração não pensa, age.
Bate sem deixar escolha! Age!
Reage e não se deixa enganar.
Ele não pensa, lembra?
Ele não sente, lembra?
Ele se entrega, sente?
Ele morre pelas noites...
E sem querer saber se vai viver.
Não tem instintos de sobrevivência,
Nem sabe que dia é agora,
Ou nem liga se alguém esquece...
Mas bate. Bate sem saber por quê.
Sente quando perde algo.
Para quando quer entender os dias.
Cai quando quer viver melhor.
Chora quando passa a vida chorando.
E esquece quando era pra lembrar:
Nada vale um dia sem ele;
Nada ilude o coração cheio de amor,
E ninguém o perde por um dia de vida.
Nada substitui algo perdido,
Mesmo que seja algo insubstituível.